Precavido Fernando,
essa expressão dos “jeitinhos e do desenrasca” da tua última carta sobre as desventuras de um consumidor em Cabo Verde reavivou-me a memória que nunca deixou de ser fresca sobre a matéria aqui em Portugal, também. Salvo o devido respeito, escrevo-te de um país que pertence há mais de 20 anos à União Europeia, que é só um dos dois blocos que contam quando de política falamos a nível planetário. E digam o que disserem, as regras da civilização foram escritas por aqui, na Europa, desde há muitos séculos. Estão cá os países mais avançados do mundo, aqueles onde as pessoas surgem primeiro que tudo, como não pode deixar de ser.

Digam o que disserem os tipos lá do outro lado do oceano que quiseram – e nós deixámos ou não conseguimos impedir - tomar as rédeas da humanidade. Olha para o Iraque.Fernando, entendes do que falo e acabo já por aqui a minha análise num assunto que não domino mais que o comum dos observadores.
Retomando o fio desta carta: se há coisa que me entristece internamente é esse velhaco desse verbo desenrascar. Desconheço se existe noutra língua, se mais alguém o utiliza à face da Terra a não ser os que falam português, mas acho que devíamos ser impedidos de o  pronunciar. Admito que ficasse numa jaula para ser observado pelas crianças da escola como exemplo a não seguir. Mas nunca mais ninguém deveria recorrer a esse verbo, apesar de estar na génese de um país e de um povo.
Achas que proponha uma petição à Assembleia da República para penalizar os utilizadores desse predicado, Fernando? Não se pode, é chocar com a liberdade de cada um dizer o que lhe dá na real gana, sem ofender terceiros, e com isso eu não posso deixar de concordar. Mas apetecia-me esganar esse verbo.
Como sabes, aqui o jeitinho de que falas também se mantém firme e hirto por cá. Um estudioso do fenómeno da corrupção que pegasse neste caso de estudo iria concluir que tem muito a ver com o atraso em que vivemos, na dita cauda da Europa. Essa mistura explosiva do desenrasca e do jeitinho.
Porquê? Porque nos vamos desenrascando, em vez de ultrapassar as dificuldades, arranjar solução para os obstáculos. É como viver um dia de cada vez. Hoje já estou desenrascado, amanhã logo se vê. No Continente africano há quem viva com estas perspectivas, mas pelas piores razões: nunca sabe quando consegue algo para matar a fome. 
Aqui é um modo de vida. E quem não é desenrascado, está lixado, Fernando!
Desenrasque-me lá, é só para me desenrascar, estou desenrascado…A todo a hora, em todo o lugar.
É verdade que quando os preços estão afixados nos supermercados o caixa não discute se um sabonete surge mais caro quando passa no leito do código de barras  do que está anunciado na prateleira e cobra o preço mais barato. De resto, é o país do desenrasca…E não vai mudar enquanto a educação não for a aposta forte do país. Como isso não acontece, é o desenrasca!

Um abraço convicto.
António Martins Neves


0 Responses to “Abaixo o desenrascanço!”

  1. No Comments

Leave a Reply





PARCEIROS