Guloso Fernando,
estava eu confrontado com um arroz de pato quando ouvi nas minhas costas as curtas frases que me deixaram de garfo suspenso. Era uma voz feminina, quase de falsete, daquelas que parecem em agonia, a desvanecer-se, a ameaçarem deixar de se fazer ouvir a qualquer momento. Uma mistura de travo amargo, desespero e má criação. Esperei um minuto que pareceu uma tarde de Inverno para ver a autora. Ainda tentei vislumbrar, disfarçadamente, por cima de um ombro e do outro, mas nada. Confesso que me agradou a breve ideia de que a boca que deixara escapar aquelas as palavras não existisse. Mas lá surgiu ela à frente de um corpo, que passou entre mim e o balcão.

“Mousse de chocolate? Nem dada! Nem se você ma oferecesse eu a comia…”, eis a frase lapidar, uma lâmina daquelas que também servem para cortar os pulsos. A proprietária do pequeno restaurante acabava de fazer uma sugestão de sobremesa e deve ter ouvido do pior que alguém pode escutar. Ai quer-me adoçar? Quer que eu coma algo que me reconforte, um doce daqueles de que toda a gente gosta? Pois tire o jumento da chuva! A mulher passou por mim e foi pagar ao balcão. Ia com outra senhora. Usava calças de ganga, uma parka, cabelo curto, grisalho, e aparentava menos de 60 anos. A voz não encaixava naquela corpo, mas tinha sido ela. A proprietária do restaurante deixou de se ouvir e deverá ficar uns meses bons a ganhar coragem para fazer uma nova sugestão de sobremesa a qualquer cliente. “Nem se você ma oferecesse eu a comia”. A rejeição, a quase repulsa contida nas oito pequenas palavras não dava margem para qualquer resposta. Lobo Antunes escreveria uma belíssima crónica com uma criatura assim a fazer tricot e a ver telenovelas da TVI enquanto o marido roncava ao lado antes de ir para mais uma noite de insónia. Quem rejeita assim a doçura servida numa taça de vidro sobrevive mergulhada em azedume, em vinagre da pior espécie, feito com pó, a martelo. Como é que alguém a quem fazem uma sugestão para agradar responde com um morteiro, Fernando? Como consegue sobreviver quem vive assim? Será só da crise? Não. A crise ali tem a idade das pernas que a fazem andar. Tudo correu sempre mal. Quem é incapaz de ficar calado perante uma proposta pretensamente agradável e que afronta um gesto bonito com um condensado de repulsa que nunca testemunhei jamais teve razão para sorrir…Ia dizer na vida, mas aqui acho que se adequa mais afirmar na morte. Ali não estava quem sobrevive sequer, mas quem já desistiu, tendo como grande inimigo o corpo, que continua a resistir e a fazer andar cá pela terra um cadáver com vida. Aquela mulher não deve sequer ter naperons em cima da televisão, vasos com flores nas janelas, deve praguejar contra os pombos, estar de relações cortadas com todos os vizinhos, irritar-se com o sol, vociferar contra a chuva, abominar o vento. Nunca tal tinha ouvido, Fernando. Pois, eu não gosto de doces, mas se fosse uma frutazinha até comia, mas o colestrol e a diabetes obrigam-me a fazer dieta…Não, nada! Detesto que me sugiram algo de agradável e repugnam-me as pessoas que gostam do que quer que seja. A não ser gostar de detestar e de rejeitar. Isso é que me faz sentir menos morta. Isso e dizer que não. O resto são banalidades e coisas vulgares que me recuso a aceitar, sentimentos bons sem razão de ser. O mundo é negro e não entendo porque querem torná-lo menos deprimente, dar-lhe às vezes uns tons de azul ou até de verde.  Nem mesmo aquele castanho diarreico da mousse de chocolate é cor alternativa às trevas onde estou. Sejamos todos muito infelizes, conclui eu enquanto me esforçava por terminar o almoço.

Um abraço muito optimista.

António Martins Neves


2 Responses to “A vida sem uma mousse”

  1. 1 ana

    e se a senhora gosta de mousse caseira e sabe q naquela casa é de pacote, e se ja teve má experiencia com outras mousses que foram servidas naquela casa e teve azia ou outro tipo de desconforto fisico,a senhora é cliente da casa e ja sabe como funciona ou só lá foi dessa vez,estamos a falar de uma casa que tem uma boa cozinha ou assim assim,estamos a falar de uma pessoa que é má disposta e amarga ou de uma cliente que mostra o seu descontentamento com alguma situação que ja conheçe? tanta pergunta e tanto angulo para analisar umas simples 8 palavras

  2. 2 Dmalaia

    …molotoff!!! Decididamente, para mim, seria molotoff, apesar da dieta. Mas eu sou dulce, o que há a fazer? Deve ser tão terrível ser uma senhora com voz de lãmina de barbear e sentimentos afiados como os dentes de um dragão…
    Desejo que os seus caminhos não voltem a cruzar com senhoras-dragão!
    Bom fim de semana