Sereno Fernando,
só há areia, mar batido, vento e o céu carregado. As ondas lambem a praia e um homem tem que se acautelar, porque elas têm um regaço largo onde cabe quase tudo o que aparecer e só devolvem tarde de mais, ou porque molham até aos ossos e uma noite assim parece o suplício de uma vida. Há que ser veemente no lançamento, dar uma chicotada determinada e ficar a olhar o chumbo que arrasta um isco que voa. A resposta é espuma e mais espuma, rebentações que soam como foguetes de fim-de-ano, daqueles de um só estrondo, mas secos. Prás! E lá vem ele alisar de novo o areal…
O homem pega na cana, avança, espera um intervalo entre duas montanhas de água e, no meio do vai-e-vem, vergasta o fio, cana e tudo. Corre no regresso e estica a linha. O que foi naquele gesto brusco, atirado assim a um mar incapaz de perdoar? Os males que se nos colam à pele, as chatices normais, do trabalho, do amor, da família. “Venho aqui e é como se fosse ao psiquiatra”, confessa-me aquele homem baixo e redondinho, funcionário público, que fez mais de 100 quilómetros com o companheiro de pescaria para estar ali.
Uma tenda pequena a servir de abrigo para uma noite que se avizinha medonha e os gestos regulares de atirar a isca à água. Força, muita força, na ida. Vão-se por esses mares fora ó estralhos da vida, vão e não voltem mais. Mandem esses robalos suculentos na resposta, um só que seja e um pescador já leva que contar.
É assim, Fernando. Há gente que passa noites de temporal na praia a tentar pescar robalos. Fatos, equipamentos sofisticados, agora. Uma vez encontrei um camponês entre Melides e Santo André que fazia o mesmo numa barraca de plástico que ele ardilosamente montava, sózinho, e comia entrecosto à luz de um candeeiro a gás às duas da madrugada. Escuro como breu, sempre. Peixe e lua cheia não se dão.
O fascínio de pescar de noite, quando os peixes estão mais predispostos a comer o que lhes cai à frente, já saiu da beira serra e chegou às cidades. Vêm pescadores de vida dos mais inesperados lugares para passar fins-de-semana no maior desconforto que possas imaginar e voltam felizes. Com peixe ou sem peixe.
O homem rechonchudo faz questão de me mostrar dois carretos novos que está a usar nas canas. Dum diz que é um “Ferrari”. Mas nunca vi nada nada assim… “Foi um torneiro reformado da Lisnave, que mora no Laranjeiro, que os fez”. São pequenos no corpo, mas grandes na alma e parecem peças de relojoaria. Cromados ao melhor estilo. “São únicos”, garante-me o pescador. E lançam bem, recuperam bem? “Uma categoria!”. Faltava virem os robalos. Era que isso que ele e o colega sempre distante esperavam, além de uma noite invernosa de chuva. Quando eles vierem, no meio da espuma, procurar alimento na areia revolta, lá se atirarão às iscadas que os esperam. Um, dois ou três. Se forem mais, tanto melhor. O importante já o mar levou: as escamas que se lhes pegam e que parecem ir arrastadas por uma chumbada cega. Venha lá o mundo outra vez!
Abraços de pescador.
António Martins Neves

