A vida como ela deveria ser
Publicado por António Martins Neves 6 Novembro 2007 em Portugal.
Viajado Fernando,
o relato que fizeste dessa mulher desejada aí nas ilhas e que conhece o mar melhor que o seu corpo remeteu-me para tempos em que as pessoas eram unidas esobreviviam por isso mesmo. Silvina nunca há-de enriquecer, do mesmo modo que o primeiro médico que eu tive na infância trabalhava 16 horas ou mais por dia e nunca teve mais que uma casa de primeiro andar em lugar nobre numa vila alentejana e mais alguns bens que não lhe davam o rótulo de rico.
Pode parecer-te disparatado, mas, cada um no seu tempo, a missão de ambos foi dar aos outros aquilo que eles precisavam.
Essa mulher de pés descalços quando o mar avança leva comer e outros bens que os compatriotas muito necessitam. O médico tratava da saúde das pessoas e fazia as “travessias” que fosse necessário para o conseguir. Ele também falava das vicissitudes da vida, pegava na mão das pessoas e afastava-as do perigo, tratando-as ou enfiando-as dentro do carro - onde ouvi dizer que chegaram a viajar 16 - e levava-as para o hospital, em Lisboa. Que num consultório de um médico de província no tempo da ditadura a saúde era um luxo (que hoje ameaça reincidir em plena democracia). Reinava ali a experiência, bastante imaginação, a arte dos farmacêuticos da terra e um elementar sentido de justiça.
Retenho duas coisas de memória, apesar de ter cinco ou seis anos na altura: os três ou quatro rasgos com aparo de caneta que me fazia na coxa para me administrar um medicamento contra a asma que me atormentava nesse tempo. A frio, até o sangue correr. Depois levava um penso em cima e não se falava mais no assunto.
O outro aspecto que me espantava era ter uma enfermeira consoante o período do dia em que tinha que recorrer aos seus serviços. Uma de manhã até meio da tarde, outra até meio da noite e a última fechava o turno, cuidando de quem precisava de um médico, muitas vezes até de madrugada, testemunha quem lá esteve.
E o médico? Era sempre o mesmo. E depois ainda se levantava cedo para levar para Lisboa as pessoas que precisavam de tratamento que não lhes podia garantir. Pagava quem podia e rezam as crónicas a ninguém nunca foi perguntado se tinha dinheiro para pagar no final a consulta. E também não há registo nas memórias das gentes de que alguém tivesse saído sem assistência do consultório. Com Silvina é diferente, estás tu a reparar. Ela é uma comerciante. Mas quem anda assim de pés descalços no mar e se recusa a vir para Portugal sente que tem uma missão a cumprir e que isso a tornará tão feliz como o médico que me arranhava as pernas e me deixava lavado em lágrimas, embora atenuando-me o sofrimento de noites sem dormir por não conseguir respirar. Seria injusto se não te dissesse o nome dele, que provavelmente já ouviste: Evaristo Sousa Gago, exercia em Grândola. Aproveitando este mar cálido em que temos navegado, sem saber quando pode rebentar uma tempestade, não resisto a fazer um termo de comparação com o que é o comportamento (real) dos médicos hoje. Todos nós sabemos, não preciso fazer-te nenhum boneco. Sabes o que era bom, Fernando? Mais uns “Evaristos” e umas “Silvinas” a olharem para o horizonte sem descurarem o que se passa à sua beira. Dinheiro? Bom, o essencial para viver porque a vida é muito mais…
Um desafogado abraço.
António Martins Neves



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