A tirania de chinelos

ABCDemocrata Fernando,
as agruras da natureza, muitas vezes, colocam em risco a nossa sobrevivência. Não chove, o milho não nasce, há falta de alimentação…Serão os ciclos naturais, será o aquecimento global provocado pela actividade humana? Muito provavelmente os dois. Mas quando são os que se julgam nesse direito a cavar a nossa sepultura, acabam-se as dúvidas e não há desculpa que justifique a bestialidade humana. Vem isto tudo a propósito de uma fotografia que correu mundo nos últimos dias e deve ter saído em centenas de primeiras páginas de jornais de todo o mundo. Mostra um soldado birmanês a abater friamente a tiro um repórter fotográfico japonês que registava a carga militar sobre os manifestantes em Rangum, a antiga capital daquele país asiático.
Dirás que é mais uma amostra da barbárie com que a humanidade ainda tem que conviver. Concordo. Protagonizada por um regime que já devia ter sido substituído por outro escolhido pelo povo daquele país. Não podia estar mais de acordo. Que continuam a matar jornalistas que cumprem a sua obrigação de reportar a realidade. Subscrevo na íntegra. Mas no meio daquela atitude cobarde da junta birmanesa, como são todas as cargas policiais e repressivas contra quem apenas exige liberdade e democracia, há um pormenor eloquente na foto. O soldado, provavelmente filho de algum camponês a quem os tiranos  do regime remetem à condição de quase vegetal, está de havaianas.
Certo que estão na moda e quase passaram a ser calçado de cerimónia aqui na Europa, igualmente verdade que nos habituámos a vê-las nos pés de milhares e milhares de timorenses sem dinheiro para um par de sapatos…Também aí, em Cabo Verde, como me contaste, são o “prato” mais apetecido dos larápios que frequentam as praias
Mas mandar para a rua um soldado de alporcatas com ordem para matar manifestantes e tudo o que não fuja a tempo parece o grande indicador da podridão de um regime.
Um magala sem umas botas…Normalmente, os regimes militares como aquele tratam bem os soldados porque deles depende a sobrevivência dos chefes. Mandá-los combater de chinelos indica que um destes dias eles recusam-se e os generais ditadores vão ter que fugir, provavelmente para os braços dos amigos chineses, porque não souberam alimentar o monstro que criaram. Concordarás que não vai levar muito tempo até que aqueles desgraçados soldados de pés nús concluam que a razão nem sempre está do lado de quem manda e passarão para a trincheira dos manifestantes, mesmo de chinelos. Nenhum fruto podre se aguenta eternamente na árvore. Acaba sempre por cair. Às vezes basta uma rajada de vento. E o soldado dos chinelos há-de perceber isso um dia, quando lhe explicarem o que é a liberdade e que os homens não são máquinas cegas de obedecer.

Um esperançosos abraço.

António Martins Neves


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