A Saúde, essa dor d´alma
Publicado por António Martins Neves 20 Dezembro 2007 em Portugal.
Atento Fernando,
desastrosa história, a de Albertino, apesar de ser um magnífico retrato do básico que continua por fazer em prol das pessoas. É vulgar e rotineiro dizer isto, mas acontece aí e aqui, onde também se esperam anos pelo raio de uma operação que leva pouco mais de meia-hora a realizar. E o paciente vai para casa no dia seguinte. Será triste a terra que tristes mandadores tem ou será das pobres gentes?
Aqui, como sabes, há muitas pessoas à espera que os serviços de saúde os atendam, como aí. Conheço o caso de um homem com mais de 70 anos que está há anos à espera de ser operado a uma hérnia inguinal. Uma meia-hora e está resolvido um sofrimento que se arrasta como ninguém consegue descrever. Primeiro foi um suplício, uma eternidade de meses que ele recorda bem, para conseguir uma consulta no hospital para um “doutor” assegurar que aquela criatura precisava ser operada, caso contrário corria (e corre) o risco de contrair uma infecção que pode ser fatal. Parece que quem trabalha nos hospitais ficou indiferente ao sofrimento alheio e está-se nas tintas para quem precisa que exerça as funções para que é pago…com os nossos impostos.
Anda um homem derreado da vida com o raio da hérnia anos e anos, quantas vezes sem se poder mexer, até que um belo dia lá recebe a “guia de marcha” para ir a uma consulta desnecessária: tem que ser operado, coisa que qualquer médico de família garantia a pés juntos e de olhos fechados. Agora é esperar.
Não é uma história recambolesca, mas não é a única a ilustrar a forma como somos tratados aqui, onde todos os que não têm dinheiro para ir aos hospitais privados são também “albertinos”.
Cito de memória duas coisas, Fernando: temos dezenas, centenas de milhares de pessoas à espera de uma intervenção cirúrgica; somos dos países de mundo onde mais impostos pagamos, logo a seguir à Suécia, de acordo com uma tabela não muito antiga. Como é possível?, perguntas tu. Pois, eu também me interrogo. Contaram-me uma vez, um rapaz que esteve a viver uma temporada num país nórdico, que os serviços públicos de saúde lhe telefonavam a avisar para ir ás consultas de clínica geral, ao dentista…de graça e obrigatório. Com multa se faltasse. E com isso poupam muito dinheiro: detectam as maleitas no início e acabam com elas à nascença. Cá? Cá…gostaria que se fizesse um estudo sério para apurar quantas pessoas não sobreviveram à espera de uma cirurgia…
Quando reencontrares o Albertino, conta-lhe só a primeira parte da minha carta. Esta não, porque ele precisa de acreditar e não atirar a toalha de vez ao chão. Mas deixa-lhe claro que por cá o Governo não considera a saúde das pessoas algo prioritário. O lema parece ser algo do género “a doença pode esperar”. Pudera! Com um ministro que assumiu publicamente jamais recorrer a um centro de saúde queríamos o quê? Que ficasse meses à espera de uma consulta para ir buscar uma credencial para fazer análises para saber como evoluiu a diabetes?…uffff Se cansa ler, imagina esperar…
Assim, não há saúde que resista. E, como diz o povo, “vai todo para a farmácia”, o dinheiro. Que forma doentia de tratar da saúde de um país!
Um abraço de esperança ao Albertino e outro de parabéns para ti por o teres ajudado a acreditar.
António Martins Neves



0 Responses to “A Saúde, essa dor d´alma”
Please Wait
Leave a Reply