A república da fotocópia
Publicado por António Martins Neves 26 Julho 2007 em Portugal.
Revoltado Fernando,
não é só por aí que há motivos de irritação, seja causada pelo povo ou pelos decisores. Viajar contra carros que circulam em máximos por “desporto”, condutores que ignoram passadeiras…Bom isso são realidades pelas quais já todos passámos. Se calhar, a preocupação que te trago hoje também vai desaparecer aqui dentro de poucos anos, mas não estou nada optimista. Nasceu com as fotocopiadoras, aquelas máquinas que agora já fotografam a cores tudo o que lhes colocam em cima e tendem em não cair em desuso. Falo-te da praga, do vício, da autêntica instituição nacional, que é fotocopiar documentos de identificação e do mau indicador que isso é para funcionários públicos, bancários e profissões afins.
Isto não é nenhuma brincadeira, Fernando, e se fosse contabilizado o número de árvores abatidas e a poluição produzida nas fábricas onde se produz o papel para tanta fotocópia, estaríamos um pouco mais aterrorizados com o que essa praga contribui para o aquecimento global e para o mal-estar da comunidade. Aposto simples contra dobrado.
Passemos a factos: recentemente fui matricular o filho na escola. Foi para aí uma dezena de documentos necessários, meus e do rapaz, que foram reproduzidos depois de eu ter preenchido outra montanha de papéis com todos os dados que estavam nos respectivos documentos. Porquê? Não poderia o funcionário confirmar com os documentos que lhe mostrei se os dados estavam certos e rubricar, atestando a sua veracidade? Parecia-me a coisa mais normal do mundo. A ti também, imagino. Mas não. Acho que os chefes não acreditam nos subordinados, desconfiam dos computadores e aquilo tudo tem que ficar duplicado em papel a apodrecer e a criar bicheza numa prateleira derreada com tantos quilos de celulose branquinha e inútil.
Outra colecção de folhas sem qualquer uso prático para a qual me obrigaram a contribuir, com o argumento de que é uma imposição do Banco de Portugal: uma reputada instituição de crédito que dá milhões de lucro, apesar de contribuir desalmadamente para as desgraças ambientais que começam a atacar-nos com força, não consegue pôr em prática um sistema que dispense o raio das fotocópias dos documentos de identificação quando diz que tem que actualizar a sua base de dados. Também não lhes basta que os funcionários confiram os elementos que lá estão. Têm que os fotografar. Os patrões não acreditam neles, mas nenhum deu por isso ainda e fazem aquilo diligentemente como máquinas. Só assim se justifica que os chefes ou donos queiram ver reproduzido o que foi, supostamente, confirmado pelos empregados/burocratas. Ou que queiram ter a possibilidade de um dia os ver, porque nunca mais ninguém olha para aquilo. Se um de nós apresentar documentos falsos, como se lê por aí que é fácil conseguir, alguém o detecta num banco ou numa instituição de finanças ou até num centro de emprego? Duvido…
Mas esta “guerra” já me mobiliza há anos. Uma vez, não me lembro já quando, impedi um desses funcionários de me fotocopiar os documentos de identificação. Eles levam aquilo da nossa vista e fazem com o bilhete de identidade e o resto o que nós não sabemos. E perguntei à Comissão de Protecção de Dados Pessoais se aquilo fazia sentido. Olha, deram-me uma resposta arrevezada e lá continuam as criaturas alegremente a estorricar inutilmente toneladas de papel diariamente.
Agora o mais grave disto tudo: o “quadro” retrata o que acontece num país onde se pretende, com a evolução tecnológica, queimar etapas e atingir os níveis de desenvolvimento dos países que nos rodeiam aqui na Europa.
Mas querer distribuir computadores baratos, tentar que o recurso à internet facilite a vida às pessoas e depois passar a vida a fotocopiar-lhe os documentos de identificação pessoais e a contribuir “alegremente” para a desflorestação e para a poluição das fábricas de papel – ainda te deves lembrar o que é passar perto de Setúbal ao fim-de-semana, pelo menos. É isto a modernidade que nos apregoam, a evolução nas instituições, em prol dos cidadãos?? Bah! Parece-me antes a fotocópia de um país, Fernando.
Um simplificado abraço.
António Martins Neves



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