Irritado Fernando,
estava a ler a tua carta onde te insurges contra quem criticou o facto do primeiro-ministro ter fumado num avião, onde não o podia fazer, quando me ocorreu ter ouvido há uns anos dizer que o lema de um empresário da noite era precisamente “quem paga tem sempre razão”. Mesmo que o dinheiro não seja dele, como dizes, e bem, ser o caso de José Sócrates. O que eu acho, e já tive oportunidade de o dizer várias vezes nesta correspondência, é que enquanto formos condescendentes e acharmos que as leis são só para ser publicadas e jamais cumpridas, nunca iremos passar da cepa torta. Seremos sempre este esboço de país sem regras, onde impera o jeitinho e o desenrascanço e nunca nada é feito como anunciado.
Há muitos anos, recordo-me de ouvir a história do então proprietário de uma casa dita de “má fama” existente à altura na Lagoa de Santo André – de que também deves ter ouvido falar, já que eram constantes as notícias originadas lá sobre cenas de pancadaria, facadas e tiros. Contava-se que ele nunca argumentava contra os clientes descontentes com o serviço do estabelecimento. “Mas concerteza, o senhor tem toda a razão. Se paga, é para ter razão”. E assim conseguia desarmar os mais renitentes protestos, numa altura em que ainda não era obrigatório o livro de reclamações. Mas isso era ele, mais a sua estratégia empresarial de querer diminuir os desacatos e minimizar os estragos na imagem da casa. Algo diferente é acreditar que se possa gerir um país com a mesma filosofia. Não creio ser possível. Encerro contudo, pela minha parte, o assunto, recordando-te uma situação de fumo em aviões cujo desfecho não mereceu contestação pública, porque a penalização de que foi alvo o fumador estava sustentada, imagina tu, na lei…Havia-me lembrado dela, mas para não me alongar na escrita nem te ocupar mais tempo do que assunto merece, omiti o caso. Se quiseres recordar o episódio, recomendo-te a leitura do que escreveu agora o Rui Vasco Neto.
Assunto distinto, mas relacionado também com questões éticas, é o que levantas com pertinência quando falas dos jornalistas que viajam com o primeiro-ministro porque o Governo os convida. Quantos deles fariam a viagem se fossem os seus patrões a ter que pagar a viagem? Temo que muito poucos, para não dizer nenhum. Assim sendo, conclui-se que a cobertura de uma visita ao estrangeiro do líder do Governo ou de ministros não é decidida pelo interesse noticioso de que se reveste, mas tão simplesmente pelo facto de haver ou não convite e cobertura das despesas pelo Estado. Sem querer ser agreste e violento para a nossa classe, e julgo que quase todos nós já desempenhámos esse papel de viajantes a convite, o resultado é apenas um: quem pagar tem garantida a cobertura dos órgãos que convida, se não o fizer o assunto é ignorado ou acompanhado à distância com telefonemas feitos para os assessores ou outras fontes das comitivas oficiais. Eficácia quase nula. E quando falo do Governo incluo no pacote também as empresas, que praticam igualmente esta “técnica” para ganharem visibilidade junto da opinião pública. Quando lhes interessa, obviamente. Com grandes vantagens: é muito mais barato e mais eficaz em termos de imagem pagar viagens, alojamento e pensão completa a meia dúzia de jornalistas do que fazer uma campanha recorrendo a agências de imagem e publicidade. Com a garantia acrescida de que os assuntos tratados sob a forma de notícia possuem uma credibilidade junto dos consumidores de informação que jamais será conseguida pela publicidade.
No meio destas situações preocupantes, o episódio recente do fumo de José Sócrates teve, pelo menos, o mérito de mostrar que, embora convidados pelo próprio, os jornalistas não se sentiram inibidos de noticiar um facto que consideraram importante, claramente negativo para a imagem do anfitrião. Como vês, Fernando, não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe. É a vida…
Um abraço muito realista.
António Martins Neves
PS: Aproveito para te informar que voltou a ser possível, a quem gosta de vir “espreitar” a nossa correspondência, receber no correio electrónico as notificações sobre cada “carta” que trocamos. Portanto, não te distraias.

