A opção de um cão
Publicado por António Martins Neves 20 Junho 2007 em Portugal.
Espantado Fernando,
um cão foi notícia aqui no fim-de-semana e eu, temendo que a proeza canina não tenha chegado às ilhas, achei que te devia contar o insólito. Não foi mordido por nenhum homem nem ferrou ninguém como outros fizeram. Este chegou aos jornais porque, aparentemente, confrontado entre o pastor e rabanho, optou pelas ovelhas, afinal o seu trabalho.
À primeira vista diria que estamos perante um profissional. As notícias não contaram mais, mas o que se soube é que o animal regressou a casa com o rebanho inteirinho, só que sem o pastor. Era um ancião de 86 anos e ter-se-á perdido ou algo terá corrido menos bem. Ora o cão, entre optar por ficar com o dono ou deixar o rebanho sem rumo, optou pelas ovelhas e lá as levou para casa, deixando incólume muito provavelmente o rendimento da casa. O pastor só apareceu no dia seguinte, quando bombeiros, GNR e outros cães – esses especialistas em encontrar pessoas desaparecidas – lá encontraram o maioral, são e salvo, nos montes da região de Amarante.
Criticas o cão, Fernando? Eu não. O pastor, se tivesse que optar, deixava o rebanho ao deus dará por causa do cão? Não acredito. Ora o mesmo fez o animal. A razão de existir e o trabalho dele são as ovelhas e não o pastor. Diria que é de profissionalismo que estamos a falar. Se calhar levado demasiado à letra. Como aqueles funcionários que cumprem de forma exímia as suas funções e se recusam fazer o que sai das formais atribuições…Mas a um cão não se pode exigir mais do que voltar para casa ao fim do dia, com todas as ovelhas do rebanho.
O pastor lá se amanhará como puder, deve ter descorrido o cão. Habituado às fanfarronices, avanços e recuos da raça humana, o bicho terá ficado descansado e pensado que o dono sabia o caminho para casa. Enganou-se. Mas, bolas, um cão tem o direito de falhar uma vez. O importante foi que as ovelhas voltaram todas para o curral. Missão cumprida, digo eu. Um canino exemplo pensarás tu. Só gostava era de saber de que raça era e já agora o nome. Um animal assim merece sair do anonimato. Não é um daqueles bárbaros que mordem as pessoas lá de casa ou matam quem lhes aparece pela frente. É um cão zeloso do seu trabalho, que deve receber em troca um mísero naco de pão ao fim do dia ou algo de mais substancial quando sobra do jantar lá de casa. Não dorme no sofá nem sobe para a cama dos donos.Deve saber o que é uma boa chuvada e nunca lhe deve ter passado pela cabeça passar a vida em duas assoalhadas. Palpita-me que será um cão feliz, Fernando. E, olha, já teve o seu momento de fama.
Um canino abraço.
António Martins Neves



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