A vida por um telefone

Jornalista Fernando,
no domingo, o jornal Público trouxe a biografia do Salazar. Já ofereceu a da Natália Correia anteriormente, do Fernando Pessoa, do Amadeo de Souza Cardoso. Mas foi nuns caderninhos todos pipis, escritos por Paulo Marques (não tive oportunidade de ir ver quem é). Mas nesta segunda-feira dedicam 10 (dez!) páginas a Alberto João Jardim, que cumpre 30 anos à frente do Governo Regional da Madeira. Faltam-lhe 18 para atingir o recorde do “botas de Santa Comba Dão”, que também era eleito da forma que ele decidia. Mas como tu andas a viver experiências bem mais interessantes do que saber que a Madeira tem uma centena de túneis mas onde a oposição diz que população emigra para o Reino Unido e para a Suíça para fugir ao desemprego, recordei-me de outros tempos, quando ser repórter aqui era como agora aí.
Nunca desmontei telefones porque na altura nem sequer havia computadores. Só tinha que ditar. Mais complicado, porque exige um jornalista do outro lado para passar para escrever o texto no computador. E temos que escrever a notícia à mão ou redigi-la na cabeça e ditar para a paciente criatura que do outro lado s sujeita aquele martírio do escreve e apaga que tão bem conheces.
Não viajei para outra ilha, mas uma vez vi-me numa situação extremamente desgastante numa campanha eleitoral. Estava Cavaco Silva, o actual Presidente da República, a liderar o Governo e António Guterres acabara de ser eleito líder do PS. Tocou-me em sorte ir acompanhar a campanha do secretário-geral socialista por todo o país que antecederam umas eleições autárquicas. Se não me engano, foram quase 8.000 quilómetros feitos num Renault Clio. A ditar as notícias de telefones fixos, porque os telemóveis, se funcionavam na altura, era só nas cidades e nos locais onde teriam um pico de procura.
Miranda do Corvo, distrito de Coimbra, princípio da noite. Procuro um restaurante para me reconfortar o estômago de um dia avassalador. Saíra de Espinho e já tinha passado por Cantanhede, Mira, depois guinara ao interior, Pampilhosa da Serra, Góis, julgo que Arganil também, e vou estacionar na terra onde o célebre Quim Barreiros ia animar um nocturno comício socialista.
Quando chego ao pavilhão, já está à cunha. A maioria são mulheres em histeria para ouvir o cantor minhoto entoar o “quero cheirar teu bacalhau, Maria”. Os raros homens encarregam-se dos filhos porque a noite é delas. Depois de um esforço descomunal chego perto do palco para ter a garantia de ouvir algo dos discursos políticos da noite. Só que antes o homem do chapéu e das cantigas brejeiras tinha que fazer a sua parte e gera-se uma caos absoluto. O pavilhão acumula para aí o dobro da suposta lotação. As paredes escorrem água como se chovesse lá dentro, tamanha era a quantidade de pessoas a respirar e suar ao som das alarvidades de Quim Barreiros. Mete daqui, chupa dali…
Mal pude, e levou muito tempo, saí daquela confusão monstruosa. Primeira grande desafio foi deixar um espaço sem corredores de segurança onde só se circulava com a boa vontade das pessoas amontoadas – não houve nenhuma desgraça, felizmente. E depois tinha que mandar a notícia do comício. Como a prioridade era conseguir algum sossego para alinhavar ideias sobre o que ouvira, peguei no carro e fugi dali a quantas pude. Tinha que ir dormir ao Fundão, atravessar quase o país por uma estrada nacional, na altura, mas era preciso recato para escrever um texto e ditá-lo para Lisboa.
Tomo o sentido de Castelo Branco, já passava da meia-noite, e deposito esperanças numa bomba de gasolina que não existia. Chego a Penela quase à uma da manhã sem uma secreta esperança de conseguir mandar a notícia. Guino para dentro da vila. Ali havia de haver um café, um bar, uma cabine, um telefone donde se pudesse falar com um camarada que estava na redacção de Lisboa à espera da prosa para ir para casa. Nada! Só nevoeiro. Desespero quase absoluto. Nem vivalma. Luzes, só as dos candeeiros. Um silêncio completo. Uma terra adormecida e eu aflito. De repente fizeram-se luzes. Dois faróis surgem na rua. Salto-lhes para a frente com ar de quem precisa do 112 (então 115). Era um jipe da GNR. Pensei pela primeira vez que a Guarda me ia salvar e não me enganei. Os homens pararam, eu confessei-lhes o meu desespero, eles disseram que podia mandar a notícia pelo telefone lá do posto, mas que não tinham contador. Isso é o menos, gritei logo eu. É só dar-lhes o número de lá que o meu colega liga de volta e depois avaliamos em quanto ficou a chamada para dizer o número.
Sim senhor, disseram eles. Então siga-nos. Lá fui eu. O telefone é aqui, esteja à sua vontade. Pequeno pormenor: não tinha a notícia escrita. Desatei a fazer uns gatafunhos no bloco de notas que levaram um dos GNR a franzir o sobrolho e a deixar escapar um “letra de médico” com ar arrepiado. O certo é que a Lusa divulgou o telex, eu deixei uma nota (acho, no tempo dos escudos) aos guardas pelo período ou dois que eles me concederam, e dei por findas as minhas funções redactoriais naquela noite pela mão da autoridade. Depois foi conduzir até Castelo Branco com um nevoeiro que não deixava andar a mais de 30 à hora porque as estrada não tinha marcas e era uma curva só. Caí já depois das 05 da manhã na cama. Mas foi de um hotel onde o coração do recepcionista não se ouvia e que seguramente não tinha internet no quarto da filha. Às oito e meia da manhã já me confrontava com a frescura das hortaliças da Cova da Beira no mercado do Fundão.

Um abraço de repórter.

António Martins Neves


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