Repórter Fernando,
tinha esta aqui no espeto para te falar nela, mas levou uma semana até que surgisse a oportunidade. Contra as correntes e contrariando todos os políticos, o primeiro-ministro de Cabo Verde veio dizer o oposto do que todos os ocupantes do  poder pensam: sejam mais agressivos a procurar notícias.

Por cá ninguém tugiu nem mugiu, mas é evidente que o pensamento que vai na mente de quem manda é conseguir que os jornalistas “incomodem” o menos possível. Se possível que dêem só aquelas frases feitas para embalar o povo, sem direito a perguntas no fim, como agora se tornou moda. Só por vergonha eles não mandam as afirmações por correio electrónico, com imagem e tudo, quer parecer-me.
De resto, nota-se no seu ar arrastado e na postura afastadora dos respectivos acessores, quase sempre ex-jornalistas, que ter que esclarecer os repórteres não é aquela obrigação inerente ao desempenho de cargos públicos, mas antes ter que responder a perguntas difíceis de um bando de chatarrões que estão sempre a querer pregar-lhes rasteiras – pensam eles.
Voltemos ao que interessa. O chefe do governo cabo-verdiano, José Maria Neves, aproveitou o convite para participar na abertura de uma conferência sobre o papel dos órgãos de Comunicação Social em democracia, aí na Cidade da Praia,  e…zás! disse o quase impensável de ouvir aqui em Lisboa ou em qualquer país governando mesmo  por uma democracia. A notícia veio da delegação da Lusa que diriges aí e dizia coisas como há “pouca agressividade dos jornalistas na procura de notícias”. Outra frase que me deixou meio incrédulo foi, embora venha fora de aspas, que o  governante acha «preferível (…) haver excessos do que o cerceamento da liberdade”.
Depois veio uma vulgaridade para encher o discurso: “a Comunicação Social numa democracia tem sempre a função central de dar expressão a todas as correntes de opinião, quer as maioritárias, quer as minoritárias, e essa responsabilidade é  tanto maior dor órgãos do Estado, e acho que esse é o papel dos órgãos públicos”.
 Será que ele achas mesmo isso? Tenho as minhas dúvidas, mas como não me parece que seja irresponsável, tenho que acreditar. Embora essa dos excessos deva ser corrigida. O jornalismo não deve ir mais longe do que a suposta verdade, e dizer o que não sucedeu ou atribuir o que não foi dito viola qualquer código deontológico que se preze. Na dúvida, quando não se confirma a informação, não se noticia. Ele tem que saber isso.
Pode ser que a mensagem tenha chegado aos ouvidos dos da sua família política e mesmo das outras, aqui. E que de uma vez por todas acatem e assumam que os  jornalistas são os interlocutores da opinião pública junto de quem decide. E,  perante eles, quem governa tem que responder. O escrutínio não é só de quatro em quatro anos, nas eleições. Quem tiver dificuldade em entender isto, antes de se  apear da cadeira do poder, pergunte aos seus assessores que já foram jornalistas. Eles esquecem-se disso no dia a seguir, mas os patrões podem sempre pedir-lhes um exercício de memória para lhe contarem o trabalho que faziam na redacção.

Um livre, pluralista e democrático abraço e mais um aplauso à liberdade de

imprensa.

António Martins Neves


1 Response to “A lição de José Maria Neves”

  1. 1 ricardo

    “Só por vergonha eles não mandam as afirmações por correio electrónico, com imagem e tudo, quer parecer-me”.

    António, há muito, para não dizer nunca, tinha lido, numa simples frase, uma retrato tão eficaz do jornalismo português nos tempos que correm.

    Não diria nem mais nem melhor, acrescentaria apenas que a tal vergonha está quase. quase, a passar. Aqui e ali já nem se lembram que um dia tiveram vergonha.

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