A lei que tem vergonha de proibir
Publicado por António Martins Neves 31 Janeiro 2008 em Portugal.
Fumador Fernando,
não deves ter dado por ele, como eu também não, mas quando voltares a Portugal, se continuares a fumar, vais poder entrar em muitos poucos edifícios e locais fechados. Na esmagadora maioria vais encontrar um autocolante vermelho à porta que diz “Não fumadores”. Claro como a água: quem fumar não pode entrar. Pode parecer um preciosismo, mas não é, e fui alertado para esta situação por outro amigo fumador, o João Vasco Almeida, que me dizia, à beira do pânico, que quase todas as portas lhe estavam vedadas por fumar.
Fui ver com atenção e acabei a dar-lhe razão. Um autocolante a dizer “Não fumadores” significa que além dessa porta ou obstáculo, ou seja lá o que for , não podem passar fumadores. O que é bem diferente de estar lá escrito “Proibido fumar”. Isso sim, corresponde ao espírito da lei. Era o que mais faltava: discriminar pessoas que fumam e impedi-las de entrar em edifícios e espaços públicos onde o fumo está interdito. Podem entrar, não podem é fumar. Digo eu, que não fumo há quase quatro anos.
Tudo isto me parece baseado naquela hipocrisia de que não se deve usar a palavra proibir. Não entendo porquê, se na realidade é o que acontece. Neste caso e em muitos outros milhares. É proibido e pronto!
Se quiseres ir mais longe no raciocínio, faz um exercício, Fernando: isto acontecia nos Estados Unidos e um consumidor de tabaco lia numa porta onde ia a entrar “Não Fumadores”. Recuava, telefonava para um daqueles gabinetes de advogados que trabalham à percentagem e dizem que defendem os direitos dos cidadãos e iam colocar uma acção contra o proprietário do edifício alegando que impede a entrada de pessoas que na sua privacidade podem fumar. E não estão só a proibi-las de fumar daquela porta para dentro. Estão a impedi-las de entrar pelo facto de fumarem. Mesmo que não lhes passe pela cabeça desrespeitar a lei e acender um cigarro dentro daquele espaço. Qualquer dia a moda pega e, na onda do politicamente correcto à moda conservadora em que cavalgam os nossos decisores, ainda havemos de ver colados nas portas dos centros comerciais, edifícios de empresas, espaços públicos e afins que não se pode entrar com casacos de pele, massa corporal acima de não sei quanto, consumidores de comida rápida, quem nunca pôs o pé num ginásio, se recusa andar de óculos na testa, calçar sapatos de vela ou usar gravata de uma só cor.
A ditadura dos hábitos está instalada pelos ditos “críticos” e “promotores” dos “hábitos”, que mais não são do que manipuladores ao serviço dos interesses comerciais de quem lhes paga, uma bocado à laia dos “analistas” do mercado do petróleo de que te falava há dias.
Posto isto, não te vou incomodar mais com proibições ou impedimentos. Só quero que fiques alerta porque alguém te pode vir perguntar se fumas ou não quando entrares num edifício público. Quero-te livre preparado para lhe dizeres que não tem nada a ver com isso e, se for preciso, mandá-los à merda!
Um esclarecedor abraço.
António Martins Neves



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