A guerra dos solnados

Divertido Fernando,
há muito tempo que não ria assim, tenho que te confessar. Não, não fui ao circo, nem ao teatro, nem sequer ao cinema, não assisti a malabarismos políticos delirantes, capazes de me dispõrem assim. Apenas comprei um jornal onde vinha um disco CD, onde, a abrir, adivinha, surge a “guerra” do Raúl Solnado. Humor a sério, inteligente, cheio de significado, pensado para novos e velhos, intelectuais e analfabetos, nobres e plebeus. E com uma actualidade de que eu não me apercebera, apesar de ter crescido a ouvir aquelas paródias, como tu, seguramente.

Não é só a guerra que é actual, companheiro. Aquela faixa de um disco, que faz parte de uma colecção intitulada “50 Anos de Música” que acompanha o jornal Público aos fins-de-semana, apresenta uma síntese mordaz da actualidade em pouco mais de seis minutos.
Primeiro grande embate com o presente: o desemprego e a facilidade com que alguém é despedido. Raúl Solnado vê-se sem trabalho na empresa farmacêutica porque teve a infelicidade de partir um comprimido. Era a flexisegurança da  altura. Despedir quando apetece, ao patrão, porque sim, como se pretende agora.
Se atendermpos que o episódio tem para aí os 40 anos que já levamos por cá, não tenhas dúvida que a história repte-se mesmo. Dantes, como agora, o fantasma do desemprego pendia como uma guilhotina sobre a cabeça de quem trabalhava.
Só assim se explica que o nosso homem tivesse em casa um banco para se sentar reservado aos que na família ficavam sem trabalho. Ali se rescostavam, a  abanar o tédio causado pela sensação de inutilidade…
Mas, caso raríssimo, nos tempos de agora, havia naquela família grande um tio que lia o jornal, que foi o começo de quase tudo. E a publicidade já marcava o quotidiano das pessoas, como revela o anúncio a pedir soldados para a guerra. “Que matassem depressa”. Onde é que eu já ouvi isto? Tás desempregado, sem futuro? A Guarda, a polícia e as forças armadas esperam por ti. Cama, mesa e roupa e algumas regras. Menos uma boca lá em casa. Os seminários dos tempos modernos, portanto.
Mas para a guerra obrigados? Não, voluntários, como agora, profissionais. A família (que é como quem diz as mulheres, sempre elas) lá tentam criara as condições para acabar com o desemprego na casa e mandar o nosso Solnado para a vida. Propõem-se comprar um cavalo, que andar a pé na guerra é assim uma despromoção mal assumida. E “o meu filho não se senta em qualquer cavalo” que por lá ande a ser sovado por traseiros desconhecidos, grita a mãe com ar distintivo. Mas o rapaz acaba por ir de táxi. Finamente. A guerra é uma paródia – tem horário - é não é para se ganhar, é uma forma de ir combatendo, faltam munições, o inimigo até é simpático…Não te parece familiar esta postura, Fernando?
Depois daquele número de alvitrar que o atirador atasse um fio à bala para recuperar a munição a cada disparo, menos de duas horas depois do alistamento, o Solnado já está nas informações, armado em agente secreto, de vestidinho e laçarotes cor-de-rosa, incumbido de ir pedir os planos da pólvora ao inimigo. Pelo que se ouve dos serviços secretos, pouco mudou…
Acaba a almoçar com os adversários da contenda. Uma enorme cabeça de pescada, a convite do capitão adversário.  A vida são três dias, digo eu, um de guerra é demasiado para o mais inadvertido dos soldados. Crise, antes, como agora, obriga a que os inimigos tenham que partilhar um só avião para se bombardearem alternadamente. Hoje despejo eu, amanhã tu.
Decorreria a guerra com natural desenvoltura se não fosse haver fiscalização, até quando impera a lei das armas. E lá se foi tudo! Chegou a hora de verificar o cumprimento das regras e acabou o conflito: ninguém tinha porte de arma! Se fosse hoje teria sido, seguramente a ASAE, essa super-polícia que coloca o mais infímo dos consumidores na mais protectora das redomas como nunca se viu, e vai a todas e vê tudo e ainda mais as botas.  Ontem como hoje perdemos as “guerras” só porque não cumprimos as leis porque tanto batalhamos…

Um pacífico abraço.

António Martins Neves


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