A guerra dos solnados
Publicado por António Martins Neves 13 Maio 2007 em Portugal.Divertido Fernando,
há muito tempo que não ria assim, tenho que te confessar. Não, não fui ao circo, nem ao teatro, nem sequer ao cinema, não assisti a malabarismos políticos delirantes, capazes de me dispõrem assim. Apenas comprei um jornal onde vinha um disco CD, onde, a abrir, adivinha, surge a “guerra” do Raúl Solnado. Humor a sério, inteligente, cheio de significado, pensado para novos e velhos, intelectuais e analfabetos, nobres e plebeus. E com uma actualidade de que eu não me apercebera, apesar de ter crescido a ouvir aquelas paródias, como tu, seguramente.
Não é só a guerra que é actual, companheiro. Aquela faixa de um disco, que faz parte de uma colecção intitulada “50 Anos de Música” que acompanha o jornal Público aos fins-de-semana, apresenta uma síntese mordaz da actualidade em pouco mais de seis minutos.
Primeiro grande embate com o presente: o desemprego e a facilidade com que alguém é despedido. Raúl Solnado vê-se sem trabalho na empresa farmacêutica porque teve a infelicidade de partir um comprimido. Era a flexisegurança da altura. Despedir quando apetece, ao patrão, porque sim, como se pretende agora.
Se atendermpos que o episódio tem para aí os 40 anos que já levamos por cá, não tenhas dúvida que a história repte-se mesmo. Dantes, como agora, o fantasma do desemprego pendia como uma guilhotina sobre a cabeça de quem trabalhava.
Só assim se explica que o nosso homem tivesse em casa um banco para se sentar reservado aos que na família ficavam sem trabalho. Ali se rescostavam, a abanar o tédio causado pela sensação de inutilidade…
Mas, caso raríssimo, nos tempos de agora, havia naquela família grande um tio que lia o jornal, que foi o começo de quase tudo. E a publicidade já marcava o quotidiano das pessoas, como revela o anúncio a pedir soldados para a guerra. “Que matassem depressa”. Onde é que eu já ouvi isto? Tás desempregado, sem futuro? A Guarda, a polícia e as forças armadas esperam por ti. Cama, mesa e roupa e algumas regras. Menos uma boca lá em casa. Os seminários dos tempos modernos, portanto.
Mas para a guerra obrigados? Não, voluntários, como agora, profissionais. A família (que é como quem diz as mulheres, sempre elas) lá tentam criara as condições para acabar com o desemprego na casa e mandar o nosso Solnado para a vida. Propõem-se comprar um cavalo, que andar a pé na guerra é assim uma despromoção mal assumida. E “o meu filho não se senta em qualquer cavalo” que por lá ande a ser sovado por traseiros desconhecidos, grita a mãe com ar distintivo. Mas o rapaz acaba por ir de táxi. Finamente. A guerra é uma paródia – tem horário - é não é para se ganhar, é uma forma de ir combatendo, faltam munições, o inimigo até é simpático…Não te parece familiar esta postura, Fernando?
Depois daquele número de alvitrar que o atirador atasse um fio à bala para recuperar a munição a cada disparo, menos de duas horas depois do alistamento, o Solnado já está nas informações, armado em agente secreto, de vestidinho e laçarotes cor-de-rosa, incumbido de ir pedir os planos da pólvora ao inimigo. Pelo que se ouve dos serviços secretos, pouco mudou…
Acaba a almoçar com os adversários da contenda. Uma enorme cabeça de pescada, a convite do capitão adversário. A vida são três dias, digo eu, um de guerra é demasiado para o mais inadvertido dos soldados. Crise, antes, como agora, obriga a que os inimigos tenham que partilhar um só avião para se bombardearem alternadamente. Hoje despejo eu, amanhã tu.
Decorreria a guerra com natural desenvoltura se não fosse haver fiscalização, até quando impera a lei das armas. E lá se foi tudo! Chegou a hora de verificar o cumprimento das regras e acabou o conflito: ninguém tinha porte de arma! Se fosse hoje teria sido, seguramente a ASAE, essa super-polícia que coloca o mais infímo dos consumidores na mais protectora das redomas como nunca se viu, e vai a todas e vê tudo e ainda mais as botas. Ontem como hoje perdemos as “guerras” só porque não cumprimos as leis porque tanto batalhamos…
Um pacífico abraço.
António Martins Neves



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