A genialidade de Isidro C.
Publicado por António Martins Neves 18 Março 2007 em Portugal.Ilustre Fernando,
As sondagens, os estudos de opinião, aquelas artigalhadas e tudo o que nós dizemos, a toda a hora, sobre “os portugueses”, é uma coisa que chega a incomodar-me. Tu até conheces mais do que eu povos e países, culturas e modos de viver que te dão autoridade para comparar formas de estar na vida.
A questão é que um dos desportos preferidos aqui, como sabes, é a generalização sobre os “portugueses”. Estamos no paraíso dos vivaços a infiltrarem-se nas filas de trânsito, dos campeões da fuga ao fisco (neste caso acredito que sim), dos assaltos, da violência, de…tudo o que é mau! É a impressão que reina na rua, mesmo de quem não conhece mais que o dia-a-dia da corrida casa-emprego, que não lê jornais, não ouve rádio e espreita a televisão quando pode e nunca sequer foi a Espanha comprar os famigerados caramelos. Somos maus! É a ideia que colhe e ponto final. Não concordo, mas não gostaria de te maçar com isso.
A mim, ocorre-me sempre valorizar a diferença, falar dos que se distinguem, nem que seja pelas mais simples proezas. Trago sempre à memória o Chico Papo de Homem, mas esse é de uma casta em vias de extinção. Mas há outros, dos que não nos estão sempre a encher os ouvidos com a mediocridade que dizem inundar-nos, que pensam e agem pela sua cabeça, que são diferentes e pela sua singularidade combatem o clima em que acho se estar a enterrar um povo que teima abrir a sua própria sepultura.
Como hoje é domingo e te imagino aí, estiraçado a desfrutar o merecido descanso, vou falar-te de Isidro C.. Não o conheço pessoalmente. Já o vi muitas vezes, mas nunca se proporcionou o diálogo. O que conheço são as suas histórias, as que conta e inventa, com genialidade e…sem consequências. A não ser a riqueza que é constatar a imaginação alheia.
Isidro C. parece quase outro, não aquela criatura mediana, sem nada que o distinga do comum dos mortais. Baixo, seco, discreto. Menos quando abre a boca. Gostaria que conhecesses várias “obras primas” que ele apresentou e nunca foram reconhecidas como tal. Umas ao balcão de uma taberna qualquer, outras enquanto apontava uma incerta tacada de bilhar, a maioria quando achou oportuno.
Como qualquer condutor, Isidro C. contribuiu também para as estatísticas de acidentes nas estradas, esse flagelo dos “portugueses”. Quis o “destino” que numa dessas vezes ocorresse um despiste, numa curva traiçoeira. O aparatoso acidente terminou quando a viatura, a fumegar pelos poros que tinha, estacou no meio num pinhal. Nem um risco, gabava-se no dia seguinte Isidro C., guardando para fim de festa o golpe de magia que os bombeiros não teriam conseguido contornar: “Tiveram que cortar sete pinheiros para o tirar de lá!”
Mas na caça está o maná de qualquer contador de histórias e Isidro C. não é diferente. Desde o gesto mais fortuito à mais elaborada estratégia, tem muito que contar sobre a arte de matar herbívoros e aves desprevenidas.
Uma das mais sofisticadas, conta ele aos amigos, foi quando descobriu que até enquanto fazia a barba podia pôr em prática o génio caçador que diz ter arrastado para o mundo. Um belo dia, no meio de uma escanhoadela, em pleno quintal, debaixo daquela videira sombreiruda, o espelho mostrou-lhe além da espuma branca que lhe cobria a cara. Um discreto pardal tratava das penas, ingenuamente lá atrás. Má hora em mau sítio. Isidro C. não perdeu a oportunidade que lhe surgia ali atrás costas. Foi buscar a espingarda pressão-de-ar, pousou a lâmina de barbear, assentou a arma virada para trás em cima do ombro e, cálculos certeiros pelo espelho, o pardal caiu certinho. Foi só o princípio. A partir daquele dia conseguiu manter a média de uma escanhoadela, um pardal. Os petiscos, presume-se, seriam à sexta-feira.
Mas como qualquer caçador, Isidro C. tem o seu lado furtivo. Uma bela madrugada ocorreu-lhe, quando via milhares de bombos bravos partirem em busca de alimento, que quando voltassem poderiam torná-lo um recordista e um respeitado atirador entre os seus pares sem tocar uma vez no gatilho. Correu a comprar visco, atarefou-se um dia inteiro a besuntar os troncos onde os pombos haveriam de pousar quando voltassem no fim da jornada, e foi normalmente para casa. Madrugada profunda saltou da cama e foi ver o que não esperava, reconheceria depois nas conversas de empatar.
Quando acordaram, os milhares de pombos, com as patas coladas aos pinheiros pelo visco, bateram as asas e o mundo testemunhou o inédito. Por serem tantos, tantos, mas tantos a fazerem-se ao voo, as raízes dos pinheiros não resistiram e ali estava o espectáculo: àrvores e árvores pelos céus, arrastadas por pombos assustados.
Esforço inglório esse. Uma bela ideia, mal concretizada, haveria de reconhecer, quando chegou a casa sem uma única peça de caça.
Só que, qualquer caçador garante, há sempre horas de sorte. Uma das maiores de Isidro C. foi quando um domingo saiu porta fora, sem cão sequer, para matar o “vício”. Foi uma manhã para esquecer. Nem o vento fazia mexer o mato, quanto mais os coelhos. Quando o relógio indicou a hora de almoço, o nosso homem optou por assentar arraiais, nada mais nada menos, junto a uns covais de coelhos, cujos habitantes não davam qualquer sinal de si. Abriu o bornal, tirou o termo e preparava-se para temperar o bacalhau com batatas quando o frasco da pimenta lhe escapou dos dedos e se foi escaqueirar numa pedra. Nada grave, pensou. Comeu, partiu e prosseguiu uma jornada aparentemente destinada a ser apagada do registo de qualquer caçador assumido. Nem um tiro para limpar o cano da espingarda.
Quis o destino que fizesse o caminho de volta e passasse onde tinha feito o banquete. E não queria acreditar no que os seus olhos viam: pilhas de coelhos à porta dos covais. Mortos, frios, à mão de semear, ali, sem ninguém ver. Mistério! Dezenas deles caídos.
Incrédulo, escondeu-se atrás de uns arbustos para tentar esclarecer o enigma. E observou a mais fácil de todas as justificações: a pimenta que deixara caída no chão era a causa de tudo. Os coelhos saíam da toca, iam averiguar aquele cheiro invulgar, espirravam como qualquer mortal e, com ímpeto da espirradela, acabavam a fracturar o crâneo na pedra que estava atrás e onde o nosso caçador se sentara para almoçar. Genial, terá sido o mínimo que saiu da boca dos analistas – que também já os há – das artes protegidas de Diana, que dizem ser a deusa da caça.
Deixei para o fim uma das melhores façanhas que Isidro C. diz ter deixado de herança a quem tem o prazer de o ouvir. Foi num fim de tarde de Primavera, regresso de uma viagem longa, de bicicleta. Uma trovoada negra a formar-se nas costas do viajante, ameaçadora, a perspectiva do céu vir abaixo com água, nem um abrigo, e um ciclista solitário: a bicicleta como aliada, a trovoada como inimiga e as pernas como verdadeiras protectoras e única safa para uma promissora molha histórica.
O escurão sempre a crescer, cada vez mais próximo, o ciclista impetuoso na pedalada, as nuvens sem abrandarem, Isidro C. disposto a não ceder, a bátega fortíssima a soar lá atrás, um autêntico paredão de água quase a esmagar um eventual desistente…Mas não sucumbiu aos elementos, contava no dia seguinte Isidro C. lá no largo. As muitas fraquezas deram-lhe as forças suficientes para aumentar mais e mais e mais o ritmo, seguramente léguas à frente dos melhores contra-relogistas mundiais, numa luta desigual de um simples homem contra uma trovoada, que acabaria numa espécie de empate. Quando derrapou à porta de casa e se recolheu debaixo de telha, deu-se por feliz e contou-o depois, envaidecido: “Consegui que só me molhasse metade da roda de trás!”
Abraço.
António Martins Neves


