A generala e o seu labirinto
Publicado por António Martins Neves 22 Julho 2007 em Portugal.
Sereno Fernando,
nem tudo é mau na vida e até na desgraça conseguimos encontrar alento e aspectos positivos. Hoje venho falar-te de uma morte e do que ela me ensinou. A “generala” morreu e com ela um mito. Deixou-nos de herança uma certeza: depois de alguém ter vivido assim só posso concluir que nada há de errado no mundo. Apenas questões, atitudes, posturas menos correctas, irregulares. Erros não. E que na diferença quase tudo se aprende.
Recordo-te em passos rápidos quem foi Teresinha Paixão, 74 anos, encontrada morta há dias em casa, num quadro de miséria. Um homem no corpo de uma mulher. Que assumiu tanto a masculinidade que uma vez, depois de se ter mascarado pelo entrudo de tenente-coronel – repara no pormenor das patentes – gabaram-lhe tanto a pose e a postura marcial que foi encomendar uma farda de…general. Daí a alcunha no feminino. Destaco também a postura, a que não terá sido alheio o facto de ter sido condenada por burla. Podia ter obtado por ser sargento-ajudante, capitão, coronel…mas não. Pedir não custa e para quê ser santo se se pode ser a divindade máxima?
Teresinha, que quando assumiu a farda por dentro, passou a apresentar-se como Tito, nome de um irmão que perdeu novo, foi aquilo a que agora se chama transexual. Mas numa altura em que isso era uma tabú ainda maior do que hoje. E, rezam as crónicas, nunca foi a um médico pedir para lhe colocarem o que lhe faltava: um pénis no lugar da vagina. No resto, era um homem. Mas não um qualquer. Viveu pelo menos com uma mulher, dormiam na mesma cama e a outra nunca notou nada de anormal. Um péssimo indicador de vida sexual, mas adiante. Curiosamente, nunca li em parte nenhuma que alguém lhe tivesse perguntado se era feliz. Também detestava jornalistas, dizia que eram parasitas. Ela que era Paixão de nome, não era de exteriorizar sentimentos. Preferia o recato e a distância garantida por uma farda com estrelas. Que vestiu durante 17 anos sem que alguém pusesse em causa. Um general é sempre um general, mas se fôr uma generala…é igual.
Pelo pouco que se sabe da sua vida, levou o aprumo militar longe de mais e quis tirar proveitos económicos disso. Apregoou alegados conhecimentos de gente influente para lhe entregarem dinheiro que iria investir. Burla. Foi condenada em tribunal e foi essa passagem pelo banco dos réus que deu a conhecer ao país a personalidade complexa de Teresinha/Tito. Ficámos a conhecer uma generala no seu labirinto, de onde não conseguiu sair. Aparentemente, a verticalidade que costuma ser atribuída aos militares a sério levaram-na a aceitar de rosto erguido a pena do tribunal. Terá errado? Não creio. Agiu indevidamente, como diria qualquer advogado. Dizia que perdeu o controlo sobre as dívidas, assim como um verdadeiro oficial pode perder o “pulso” da companhia, que passa a ignorar-lhe as ordens. Passos em falso, apenas. Erros, nunca. Se algum houvesse, estaria debaixo daquela farda. Mas não. Porque nada pode falhar tanto que um homem seja obrigado pela natureza a ser uma mulher.
Um inequívoco abraço.
António Martins Neves



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