A fuga da corte completa

Adaptado Fernando,

medo, medo terá sentido o então ainda príncipe regente português que se viu obrigado a fugir para o Brasil para salvar o Império do princípio do Século XIX. D. João VI terá levado 15 mil cortesãos atrás de si para o Brasil, para fugir do imperador francês Napoleão Bonaparte e dos espanhóis. Tu só mudaste (um) pouco de vida e voluntariamente. Ele foi obrigado. Do mal, o menos: deu origem ao Brasil como ele é hoje, “o único país que deu certo na colonização portuguesa”, como me dizia uma vez um brasileiro com responsabilidade na comunidade verde-amarela aqui em Lisboa.

É verdade, Fernando. Cumprem-se precisamente hoje, a 22 de Janeiro de 2008, 200 anos que a corte portuguesa aportou na cidade a que hoje chamamos Salvador da Bahia, fugido do imperador francês Napoleão, apostado em dizimar as monarquias absolutistas europeias, como a portuguesa, em que o rei continuava a ser o dono e senhor do país e o povo remetido à condição de vassalo e pagador de impostos para sustentar Sua Alteza.

Emparedado entre a ameaça francesa, entretanto apoiada pelos espanhóis, e a chantagem inglesa, de que se cedesse aos interesses de Napoleão e seus acólitos, a armada britânica bloquearia o país, D. João VI tomou a opção inédita num (na prática) monarca europeu, e talvez mesmo no mundo: fugiu da capital do império para uma das suas colónias. Terão sido muitas as razões, mas eu realço a principal: medo. Se os militares franceses o tivessem apanhado em Lisboa teria sido obrigado a abdicar do trono e sabe-se lá que o quê mais…temo que não lhe ficasse destinado um tratamento lá muito VIP…

Perante esta iminência, D. João VI, sobre quem se diz ter chorado quando soube que teria que assumir a governação da nação, a quem muito a propósito os historiadores chamam “gordo, depressivo e medroso”, conseguiu, em poucos dias, reunir uma frota e fazer-se ao mar antes que os homens de Napoleão chegassem a Lisboa. Foi ele e mais uns 15 mil cortesãos a caminho do Brasil, com as mordomias do costume atrás. Lá nunca ninguém tinha visto um rei e, contam as crónicas, não ficaram muito agradados com a figura do monarca português, ainda mais com 55 dias de mar em cima, e não se manifestaram à sua chegada. Não por ser apenas um príncipe regente a substituir a mãe incapacitada, D. Maria I, por doença incurável. Os registos apontam mais para a reacção de um povo subjugado e com intenções independentistas que acabaria por se render a um efectivo rei, mesmo sem grande carisma. À volta de metade seriam escravos. Durante o mês em que descansou na Bahía, D. João governou e mandou fazer obra que alterou a impressão que os baianos alimentavam do regente português. Quando partiu para a ultima etapa, até ao Rio de Janeiro, já deixou o nordeste brasileiro mais convencido e as aspirações independentistas serenadas. Dizem os historiadores que a sua passagem pela cidade foi o acto que garantiu o Brasil unido como hoje ele existe, desde há 200 anos.

Podes imaginar, Fernando, que não foram momentos fáceis, e que, como revelaste na tua última carta, também o monarca lusitano teve medo. Mas muito mais medo do que um português que chega com uma mala ou duas e de repente é bafejado com o vento quente da costa africana num aeroporto de Cabo Verde.

E a corte e os milhares de membros que foram atrás para não perderem os privilégios que mantinham em Lisboa tiveram alguma dificuldade em adaptar-se ao clima tropical do Rio de Janeiro e ao modo descomprometido e folgazão dos seus habitantes. Festa houve à chegada, mas logo esmoreceu quando salta aos olhos que o rei é um homem muito gordo, cansado, com umas suiças castanhas a enfeitarem-lhe a cara mais ao jeito do centro da Europa do que de um país do hemisfério sul, condicionado pelo calor e pela humidade. Se com um rei inseguro, apesar de tudo chegaram decisões e governação que beneficiaram a então colónia, o povo depressa constatou que a corrupção tinha ido na armada naval. Para albergar a nobreza toda começaram a ser ocupadas as casas do povo e a serem pagos preços exorbitantes por tudo e nada pelos cortesãos carregados de ouro. Instalou-se a corrupção e se chegou a construir-se algum sonho na mente dos cariocas, ele caiu por terra como um castelo de areia construído na praia de Copacabana quando é varrido por uma onda.

D. João VI esteve 13 anos no Rio, antes de regressar a Lisboa. Para ilustrar o pior da passagem da corte pelo Rio costumava dizer-se na cidade que em Portugal para se fazer um conde eram necessários 500 anos, no Brasil bastavam 500 contos.

Carlota Joaquina, a espanhola magra e feia que deu nove filhos ao príncipe, que só assumiria o lugar de rei depois da morte da mãe, já então demente, nunca escondeu a sua aversão ao Brasil e ao povo que encontrou. Só terá sossegado quando voltou a entrar na barra do Porto de Lisboa.

A fuga da corte para o Brasil teve um grande destaque por estes dias aqui em Portugal, mas eu, curiosamente, havia-a conhecido já com grande pormenor no livro de “Império à deriva”, de um australiano chamado Patrick Wilcken. Para o mês que vem chega aqui outra versão da mesma epopeia, mas desta vez da autoria do jornalista brasileiro Laurentino Gomes, intitulada 1808, que já vendeu 200 mil exemplares do outro lado do Atlântico.

Como vês, Fernando, viajantes com medo são quase todos. Uns por opção outros por obrigação. Mas os mais assustados são sempre aqueles a quem o desconhecido é imposto… Está na história!

Um narrativo abraço.

António Martins Neves


1 Response to “A fuga da corte completa”

  1. 1 Portugal governando a partir do Brasil : TubarãoEsquilo, a rede de blogues com actualidade, informação e notícias

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