A Espanha aqui tão perto
Publicado por António Martins Neves 21 Abril 2008 em Portugal.
Paciente Fernando,
consegui, consegui! Volto a falar-te de política, mas desta vez por um bom motivo. É certo que não aconteceu em Portugal, foi aqui ao lado, em Espanha, mas ter ocorrido revela por si só um avanço que vai ficar registado nos manuais de história da política. O primeiro-ministro socialista espanhol, Rodríguez Zapatero, que perdeu a maioria absoluta nas últimas eleições legislativas, empossou uma mulher, grávida de sete meses, no cargo de ministro da Defesa. Mando-te a foto para veres Carmen Chacon, uma catalã de 37 anos, a passar revista às tropas em parada.
É um grande abanão num país onde predominam, como cá, fortes traços de machismo latino e que será o segundo onde o catolicismo terá mais peso na Europa, a seguir a Itália. Portanto onde o conservadorismo, seguindo a lógica predominante, devia imperar e seguir as regras da Igreja, que, lá no fundo, ainda age como se as mulheres tivessem reservado como principal papel ficar em casa a cuidar dos filhos. Verem uma delas a liderar uma classe onde a sua entrada estava impedida há alguns anos deve ter sido um autêntico murro em muitas mentalidades. Mas como há políticos corajosos como Zapatero, que acham que o mundo deve “pular e avançar” e não viver agarrado ao passado carregado de nuvens negras, eis uma decisão simples e plena de significado.
Cá, acho que nenhum dos políticos que podem aspirar a ser líderes de governo teria coragem de o fazer. Nem quem ocupa o cargo agora. Basta atender a que o líder socialista espanhol empossou um Governo onde as mulheres estão em maioria. Cá, num Governo também do Partido Socialista e com maioria absoluta, em 16 ministros apenas dois são mulheres. Mas temos alguém que deu mais um forte pontapé nos preconceitos e, sem o fazer anunciar sequer, decidiu algo num país regido por uma ditadura até mais tarde do que aqui, em Portugal. Só que souberam sempre dar os passos importantes rápidos e nunca tropeçaram nos próprios pés. Aprenderam com os erros dos outros e não caíram nos mesmos. Agora ficam a par dos países do Norte da Europa, onde a civilização costuma ir mais avançada do que junto ao Mediterrâneo. Ou ia. Porque as decisões políticas devem ser tomadas com convicção e não para agradar às clientelas. Se forem as correctas, os eleitores acabarão por reconhecê-las, legitimando-as pelo voto.
Não vou alongar-me mais na escrita hoje. Apesar de agradado pelo avanço civilizacional aqui ao lado, o ânimo não abunda. Falei-te de um assunto positivo e gostaria de ter mais para te relatar nos próximos dias. Vou tentar.
Um forte abraço.
António Martins Neves



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