A época dos três “A”
Publicado por António Martins Neves 4 Junho 2007 em Portugal.Sortudo e descansado Fernando,
festas, casamentos e baptizados. Pouco antes de pegar na caneta para te escrever mais estas singelas linhas, retive da realidade noticiosa esta espécie de anúncio ao ficar a saber onde já vai o aproveitamento da albufeira formada pela barragem de Alqueva, o tal maior lago artificial da Europa que prometia tirar o Alentejo do marasmo e garantir muita água aos sempre sedentos alentejanos. Afinal, ele é mais festas em barcos e menos agricultura. Como já havia quem previsse, nada do que se falava está a acontecer e, adivinha lá, a galinha dos ovos-de-oiro volta a ser o turismo. Eu diria antes que é apenas o primeiro “A”dos três que passaram a encher a boca de toda a gente.
Quando reinava a ditadura por aqui, éramos o país dos três “F”: fado, futebol e Fátima: a canção para nos manter resignados com o destino, o jogo para nos entreter e alimentar discussões inócuas e o santuário religioso para sustentar a esperança à custa da fé. Mais de 30 anos passados, muita coisa mudou, felizmente, para melhor, mas é preciso continuar a manter o povo aceso em relação ao futuro prometido.
A mudança passou também pelas letras do que nos mantém crentes em que melhores dias hão-de vir, Fernando. Só que agora não é uma cantiguinha, um joguinho ou uma peregrinação a pé. Só obras que se vejam trazem o povo contente e elas aí estão, feitas ou prometidas. O primeiro “A” já encheu: é Alqueva. Água à farta para…passear. Um investimento faraónico que ninguém sabe se alguma vez vai ter o aproveitamento que o justificou. Os outros dois “às” tratam agora de acirrar os políticos uns contra os outros e prometem absorver um belo naco do investimento nacional para os próximos anos. Do retorno, também pouco se fala e ninguém sabe muito bem no que vai dar. Faça-se e depois logo se vê, diria ser a palavra de ordem. Já percebeste que te falo do “A” de novo Aeroporto e do outro“A” da Alta velocidade dos comboios.
A discussão, como quase sempre, está inquinada. São os políticos a dominar o debate e quando isso acontece estamos a desviar a questão do que é fundamental para aquilo que convém a quem precisa de votos para se manter à tona de água, nem que seja em Alqueva. Precisaremos mesmo de um novo aeroporto? Talvez. Manter dezenas de aviões a aterrar e a deslocar diariamente sobre Lisboa não será o cúmulo da segurança, mas uma espécie de machado suspenso sobre a capital do país que pode cair a todo o momento e provocar uma catástrofe de que muito poucos falam, vá-se lá saber porquê.
Construir outro aeroporto? Os técnicos que decidam o caminho a seguir com base em dados e factos fidedignos, cenários convincentes, estudos com pés e cabeça, que há, felizmente, muito quem os saiba fazer. Os políticos que olhem para as contas e decidam o que querem fazer do futuro.
Já o comboio de alta velocidade parece-me mais um Alqueva sobre carris. Com um eventual novo aeroporto e os bilhetes de avião ao preço da uva mijona, não me convenço que o comboio, por muito rápido que seja, se torne numa alternativa. A barragem alentejana foi feita mesmo sabendo-se que a capacidade de rega e de uso da água das albufeiras existentes não era sequer metade da disponível. Com os comboios promete-se o mesmo. A actual via férrea, alvo de grande (e cara) modernização, anda às moscas, porque é na estrada que circulam as pessoas e as mercadorias, gastando mais e poluindo um exagero. Caro amigo, a única justificação que vislumbro para o que aí vem é uma nova modalidade turística, uma variante ao “Allgarve”, que poderá chamar-se “AAAlém-de-tudo”. Os visitantes aterram no novo aeroporto e vão a alta velocidade mergulhar no Alqueva.
Um apeado e enxuto abraço.
António Martins Neves



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