Atento Fernando,
umas sopas de tomate não deixam de o ser se levarem peixe, ovo ou se forem “cegas”. É como um casamento: é quase igual em todo o lado, pelo menos se os noivos forem, alegadamente, católicos. A incompetência, o despotismo, são iguais em qualquer parte, tal como a integridade, o carácter, enfim, aquelas coisas de que costumamos falar. Daí que tratar a questão daí ou daqui, no campo dos princípios, é igual. Só difere pelos meios e pela suposta fiscalização e moralização dos costumes que imperam. Sem querer que me acuses de voltar a  “descascar”, como costumas dizer, quero que saibas de mais uma realidade (dura) que veio á tona de água aqui no teu país de marinheiros.
E ocorreu-me falar-te disso, Fernando, quando hoje vi umas centenas valentes de adolescentes em fila à porta de uma escola onde aceitam inscrições para o ensino superior. Que raio! pensei eu. Na era da Internet de banda larga (rapidíssima) e esta gente às 8,30 da manhã aqui? Mas estavam lá, mais os pais, os parentes, um arraial. Bom, a perspectiva de entrar para a universidade pode ser uma festa, mas daí até levar esse “gozo” ao ponto de tornar isso um suplício de horas vai uma diferença substancial, murmurei de boca calada.
Tentei informar-me, depois de ter lido há dias na imprensa que apesar de ser possível fazer a candidatura “on-line” ao ensino superior, alguns alunos preferiam entregá-la em mão a um funcionário. Péssimo sinal, conclui. A geração futura prefere a burocracia dos papéis ao tratamento digital de uma matrícula?? Gosta mais de esperar e ter que estar cedíssimo encostada a um muro em vez de escolher a hora em que pode, em frente a um ecrã de computador, mandar o seu processo descansadamente?? Alto lá, que aqui há gato (se fosse em África seria leão…)
Uma amiga e camarada de trabalho, especialista na matéria, a Joana que bem conheces, esclareceu-me que afinal não era só isso: a entrega de candidaturas exigia o pedido (normal) de uma senha e havia quem a tivesse requerido em Março e ainda aguardasse por ela. Acendeu-me o vermelho… No país onde a o primeiro-ministro garantia há mais de uma não – e já se contradisse, tal como outros elementos da sua equipa – que todas as escolas do país (TODAS) estavam ligadas por internet rapidíssima, uma candidatura à universidade exige que se tenha uma caneta para se preencher papéis que vão ser entregues a um funcionário que trabalhda das tantas às tantas e… Algo está errado, Fernando. Se compreendo ver uma fila de pessoas à porta de uma repartição de Finanças para entregar a declaração de IRS em papel, já não entendo que futuros “doutores” façam o mesmo. Num país com elevado indíce de analfabetismo e onde a Internet não é algo generalizado nas famílias (porque ainda é mais um negócio do que uma utilidade que poupa dinheiro aos cidadãos e ao Estado), a maioria dos contribuintes, julgo eu, não tem acesso à Internet ou não tem, infelizmente, os conhecimentos suficientes para a usar.
Mas estudantes de 18, 19, 20 anos…? A minha amiga informada disse que afinal a questão não era só dos estudantes, mas havia falhas no sistema informático que devia aceitar as matrículas.
Pergunto eu, Fernando: é este o país anunciado? Aí um capitão que olha mal para a carta de navegação lança a âncora no local errado e deixa o país sem internet, partindo um cabo de telecomunicações. Aqui, as pessoas têm que passar horas e horas encostadas a um muro para entregar em papel uma candidatura que poderia (e foi prometido) ser entregue “on-line” e os responsáveis do país assobiam e continuam a falar de índices de crescimento, que estamos no bom caminho…Não acredites em  nada disso, Fernando, porque eu também não. Agora, é só ver para crer. Enquanto for suportável. É que eu avalio as pessoas pelo que elas fazem e não pelo que elas dizem. E faço questão que os políticos que nos pedem os votos cumpram o que prometem. Outra solução não encontro!

Um firme abraço.

António Martins Neves


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