A “diferença” de Cuba
Publicado por António Martins Neves 25 Fevereiro 2008 em Portugal.
Caro Fernando,
o Luís Nascimento, um jornalista e “velho” amigo que costuma vir ver a nossa correspondência, escreveu-nos e manifestou salutar discordância com a carta que te escrevi sobre Fidel de Castro. Como aconteceu noutras alturas, aqui te deixo o texto recebido.
Um abraço.
António Martins Neves
Caro António,
sobre [as tuas considerações acerca de] Cuba e Fidel, não resisto a fazer algumas observações. Respeitando o teu ponto de vista, considero que no “politicamente correcto” que é a defesa intransigente da democracia, não se devem negar os valores que estiveram subjacentes a uma revolução como a cubana.
Antes de mais, como sabes, em nome da “democracia” que a Administração Bush quis levar a todos os cantos do mundo, têm sido cometidos nos últimos sete anos autênticos crimes contra a humanidade, a invasão do Iraque, com Falujah,etc, no Afeganistão, com o bombardeamento maciço de povoações com pobres aldeões, que primeiro levaram com os soviéticos, depois com a guerra civil, logo a seguir com os talibans e agora com a ocupação norte-americana/Nato.
Um estudo da Universidade de Berkeley(Califórnia) estimou em 600 mil o número de iraquianos mortos desde a invasão. Números não desmentidos.Isto para dizer que sempre, ao longo da historia contemporânea, os Estados Unidos cometeram erros tremendos, ora em nome da “democracia”, ora para defender os seus interesses. E foi o que aconteceu em Cuba. Um grupo de revolucionários levou a cabo uma extraordinária luta de libertação de uma das mais atrozes ditaduras, a de Fulgencio Baptista, um regime que matava, explorava e espoliava os cofres do Estado.Era um país atrasado, pobre, com analfabetos, e era um quintal dos EUA, um bordel com escravas sexuais de turistas americanos.Com Fidel Castro, o sistema criado levou àquela sociedade um serviço de saúde que mete inveja a de muitos no ocidente rico; um nível de educação, de literacia ímpar, com um povo culto, preparado e, sobretudo, com preocupação internacionalista. Recordo-te que em muitas crises humanitárias, como o tsunami asiático,Timor-Leste, terramoto no Paquistão, deslocam-se médicos e enfermeiros voluntários para acudir aos mais necessitados. É uma questão de cultura solidária.
Agora perguntas: achas que meio século sem a bota cardada do Tio Sam é um fracasso? Fidel tornou-se pró-sovietico por força das circunstâncias, aliás no final dos anos 50, antes de chegar ao poder em Havana, ele deu uma entrevista a um jornal norte-americano onde dizia que não era marxista (Camilio Cienfuegos,não era de todo), ele que foi educado em meios católicos e conservadores com raízes galegas. Saberás também que documentos recentes nos EUA revelam que ele estava à beira de obter uma espécie de acordo de cavalheiros com Kennedy, que na pratica consistia num conjunto de cedências para sossegar a Administração norte-americana? São factos históricos. Não terá sido o bloqueio, a sabotagem permanente dos EUA que fez endurecer a natureza do seu regime? Não sou comunista, mas admiro a coragem dos que fizeram a revolução cubana, mesmo que tenha sido uma utopia.
E os que tanto falam em ditadura cubana, comparem a de Fidel com os torcionários amigos dos EUA em países como a Bolívia, Chile, Brasil, Argentina, Paraguai (com o inefável Stroessner),tudo gente contemporânea de Fidel e tirem conclusões. E podem até comparar com as “democracias” politicamente correctas que actualmente existem na América Central, para ver como vivem as pessoas e que progressos foram alcançados nas áreas da saúde, educação, Estado Social.
Não há verdades absolutas, nem no que acabo de escrever, nem nos argumentos que condenam Fidel. Mas julgo que Cuba merecia uma abordagem mais cuidadosa.
Um abraço.
Luís Nascimento



0 Responses to “A “diferença” de Cuba”
Please Wait
Leave a Reply