A cereja em cima do melro
Publicado por António Martins Neves 14 Junho 2008 em Portugal.Ambientalista Fernando,
subscrevo em absoluto a tua indignação com quem mata tubarões porque esses massacres continuam a render e fico também revoltado com o facto de haver gente que paga o que lhe pedirem para comer uma extravagância qualquer, mesmo que se trate de um capricho com consequências devastadoras como essa da sopa de barbatana. Ter muito dinheiro está cada vez mais a tornar-se sinónimo de ignorância. E mantém-se árdua a tarefa de combater a ideia antiga de que o dinheiro tudo compra e tudo paga. Puro engano! Vê para onde estamos a caminhar, porque se instituiu que as regras da sociedade devem ser determinadas por questões financeiras.
Com isto tudo até me baralhei todo com o que vinha contar-te e que acaba por fazer um contraponto a essas criaturas que teimam em ditar leis.
Era quase noite e começava a ver surgirem numa serra distante as primeiras luzes que assinalam várias localidades. Pedrógão Grande, Pedrógão Pequeno, uma serra cujo nome não sei a demarcar o horizonte. Apenas que do outro lado fica a Lousã, Pampilhosa da Serra, Arganil. Os únicos ruídos que se ouvem são provocados por humanos, um cão ou outro a mostrar desagrado sabe-se lá com o quê e o raro cantar de pássaros atarefados em recolher a poiso seguro antes da noite cair em definitivo. De repente, um melro faz um traço no crepúsculo e poisa num cabo de alta tensão. Poucos segundos depois atira-se quase literalmente como um torpedo em direcção ao solo. Quando deixa de ter o céu como fundo, é engolido pelo escuro da vegetação e desaparece. Havia-me ocorrido já que neste remanso no meio do Pinhal da Beira Baixa não abundava a vida selvagem. Nem as cerejeiras, sempre atreitas a chamar aves gulosas, pareciam ter procura. Os frutos brilhantes caem de maduros se nenhuma mão os for colher e não se detecta sinal de pássaros entrincheirados entre as folhas, baqueteando-se com frutos suculentos. Tempos idos, pensei. Proliferam por aqui as espingardas, que atiram contra tudo o que mexe e não só as tartarugas, as cagarras ou os tubarões de Cabo Verde são dizimados pelas mais inconcebíveis razões. Podemos generalizar? Claro que não, nem agora nem nunca. Tinha eu ficado a pensar o pior quando me relataram uma história que fazia envergonhar esses caçadores a quem apontas o dedo. Uma beirã, daquelas que parece ter raízes na terra, que acorda e adormece a labutar, membro de pleno direito daquel grupo de quem se diz habituado a tirar da Natureza tudo o que ela dá, veio confirmar que o bom senso e a inteligência hão-de prevalecer, mais que não seja porque as leis da vida mandam que quem tiver capacidade de pensar não pode cavar a própria sepultura. Andava a senhora a mostrar a criação a citadinos empedernidos quando, deixando para trás os patos, perús, galinhas e pintos, se chegou debaixo de uma árvore, colocou-se em bicos de pés e retirou de um ninho as estrelas da companhia: melros gorduchos, uns torrões de carne ainda sem penas, segundo me contaram testemunhas. Pergunta sacramental: e quando eles ficarem criados e em vias de abandonar o ninho…? Resposta automática: vão à vida deles. E devolveu-os ao aconchego do “lar”. Como vês, Fernando, ainda é possível contar estórias com animais sem final infeliz.
Um natural abraço.
António Martins Neves



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