A angústia depois do penálti

Tropical Fernando,
estou exausto, farto e agastado! Acabou-se-me a paciência e apetece-me dar um grito que possas ouvir aí no Hemisfério Sul. Nada de trabalho nem mesmo razões pessoais. Nem sequer por causa da crise, do desemprego galopante ou por uma boa parte do Parque Nacional  do Gerês ter ficado em cinzas logo no início da Primavera. O que me indispõe assim há uma semana é o raio da importância que este país deu a um golo! Isso mesmo: um chuto para dentro de uma baliza.

O país ia parando de vez por causa de um penálti que não foi e que acabaria por decidir a entrega de uma taça ao Benfica, que a disputou com o Sporting, desta vez no papel num exagerado papel de dama atraiçoada.
Mais do que o guarda-redes nos momentos que antecederam a marcação, quem ficou angustiado fui eu. Uma semana inteira a ser matraqueado nos telejornais, na imprensa, nos fóruns das rádios, por causa do raio de um chuto que não devia ter existido, diz quase toda a gente. Eu, que a ter ainda alguma réstia de simpatia clubística é pelo Sporting, não concordo com o barulho que este clube fez. Porque só se queixam quando perdem. O Benfica desvalorizou, claro. Foram declarações acaloradas, quase pedidos de cabeças em bandejas , o mundo à beira de se precipitar irremediavelmente no abismo final, demissões de gente com rosto ruborizado, reconstituições em computador, o árbitro a assumir que se enganou e mais o que consigas imaginar e que eu já nem me quero lembrar. E que aconteceu? Nada! Rigorosamente nenhuma consequência prática. Que eu tenha dado por ela, que olho de relance para os assuntos da bola, menos quando me apedrejam desta forma despudorada como aconteceu esta semana.
Só hoje, sábado, não ouvi falar do raio do penalti. Sete dias sete foram necessários para espremer o assunto até à náusea. Para nada, claro está. Além das audiências televisivas e das tiragens dos jornais. Voltou tudo à santa paz. A pólvora seca do costume. E assim se vai andando, de penálti em penlti até à derrota final.

Um regular abraço.

António Martins Neves