A Aberta Nova de todos nós
Publicado por António Martins Neves 16 Junho 2007 em Portugal.
Descansado Fernando,
estive agora a fazer as contas e conclui que esta é a centésima carta que trocamos. Este fervor da escrita de contar de cá para lá, daí para aqui, não tem parado. É como o mundo e as mentes. Nem no sono se pára. E se tudo correr como espero e não houver chuva – contrariando as previsões dos especialistas – neste fim-de-semana “centenário” estarei a passear nesse areal que vês aí ao lado. Termina no mar, perto donde vi oceano pela primeira vez e onde volto sempre que posso.
Não sei é por quanto tempo mais. A faixa de areia ininterrupta entre Tróia e Sines é demasiado apetecível aos interesses económicos para passar incólume no crivo das contas. Dizem os decisores, das câmaras e do Governo, que construir projectos turísticos acessíveis só a pessoas ricas tem “interesse nacional” e justifica por em causa os valores naturais dessas zonas, que, como muitas outras, sabe-se há muito, são indispensáveis para a sobrevivência da raça humana. Muita gente ainda pensa que carros topo de gama e cartões de crédito é que nos trazem por cá, mas disso falaremos noutra altura, se me apetecer…
O certo é que conto este sábado dar um mergulho na praia da Aberta Nova. Tem uma má estrada de terra até lá, um parque de estacionamento para escassas dezenas de carros, um pequeno bar onde se bebe um café num copo de plástico, mas… permite a melhor vista que conheço naquela língua de areia com mais de 40 quilómetros. E toda a gente pode lá ir, Fernando. No futuro, não sei.
E sustento as minhas dúvidas. A Norte, num empreendimento que se pretendia das arábias – por ser de um iraquiano que “desertou” quando percebeu que não estava no Dubai - mas que se ficou por umas casas de luxo construídas na língua de areia de Tróia, a praia tem um estatuto privado encapotado. Uma cancela para travar quem não seja residente e proprietário ou usufrua de nenhuma das mansões. Ninguém assume isso, mas é o que acontece. O acesso à praia, espaço público inquestionável, condicionado pelo dinheiro dos que podem aceder ao local. Quem autorizou? A Câmara local. Interesse público, não vejo nenhum, Fernando. Empregos serão pouco mais de meia-dúzia, depois de construídos os palacetes, e são sazonais. Uns vendedores de bicas e gelados numas barracas àbeira do areal.
O pior é que a coisa tende a generalizar-se e qualquer dia não sei se posso ir à Aberta Nova mesmo por aquela estrada poeirenta, beber um café num copo de plástico e olhar o oceano descontraídamente sem me preocupar com horas ,nem com casas, nem com investimentos, nem com o interesse dos outros, que não é público nem é o meu. Na prática, aquilo a que se assiste é chamar interesse público àquilo que fica acessível a quem tem muito dinheiro para investir naquilo que o Estado diz que tem que ser usufruído por todos. Mas, na prática, não é verdade! Olha,F ernando, tenho que aproveitar enquanto puder. E ali, na Aberto Nova, não preciso (ainda) esconder os chinelos, nem a toalha, nem nada…Espero que por muitos anos. Um grande fim-de-semana e, se fores à praia, lembra-te que eu não irei descalço até ao areal.
Um abraço salgado.
António Martins Neves



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