25 km/dia para ir trabalhar a Luanda
Publicado por António Martins Neves 9 Maio 2007 em Portugal.Automobilizado Fernando,
nem de propósito: a tua carta sobre esse grande homem maasai caiu-me quase na fraqueza, como se costuma dizer. Quando a li, tinha acabado de ver uma reportagem na RTP-África daquelas que quase nos tiram o sono. Um pesadelo que poderia ser completamente evitado. Centenas, talvez milhares de angolanos que têm que andar 24 quilómetros POR DIA A PÉ para irem trabalhar. Acredita, Fernando. Eles contaram e a reportagem mostrou. Num dos países do mundo que mais petróleo e diamantes produz. É verdade…
Lá no Quénia, no meio de quase nada, para um rapaz de uma tribo que vive do pastoreio andar 50 quilómetros a pé num dia para ir ler o correio electrónico que lhe enviam é meritório. Indica que ele é, antes de mais, culto e sabe a importância da comunicação, as vantagens que traz a rápida troca de informação – passe a contradição com a meia-centena de quilómetros para atingir essa rapidez. Ele percebeu que comunicar, verbalmente ou por escrito, como tu contas, é uma das condições base para as pessoas evoluírem. Conhecer outras vidas, outras experiências, viver outras realidades faz-nos evoluir o pensamento. Apetece-me aplaudi-lo, a ele que a esta hora lá deve andar com a sua lança, embrulhado no seu pano vermelho, muito provavelmente guardando um rebanho de cabras e vacas como o seus antepassados sempre fizeram. A grande diferença é que uma vez por semana consegue chegar à sua conta de correio e muito certamente ficar informado, pela Internet, do que se passa no mundo e não apenas nas vastas áreas ressequidas perto da fronteira com a Etiópia como acontecia aos seus pais e aos seus avós. E ele já percebeu a diferença.
Os angolanos que eu vi na RTP também percebem a diferença, mas a questão com que se confrontam é muito mais primária e não depende nada do seu empenho ou da sua boa vontade. Eles vão trabalhar, produzir riqueza, num dos países com o maior crescimento económico do mundo, mas têm que ir a pé…porque não têm um transporte público que os leve.
Moram em Viana e vão trabalhar para Luanda. Quase como se as pessoas que residem aqui em Rio de Mouro tivessem que ir a pé trabalhar em Lisboa porque não houvesse comboio. Levantam-se às 05,30 da manhã e chegam a casa às 23 da noite, como contava uma mulher jovem na reportagem. Todos os dias, resignados. Para viverem. Têm prometido um comboio, já lá se via a linha, mas não se sabe para quando.
Pergunto-te eu, Fernando: será justo ou sequer admissível num país com tanta riqueza faltar ainda um bem tão primário como o raio de um autocarro, para já não falar num comboio, mais complexo de instalar? Com tanto petróleo, tantos diamantes, tanto investimento, tanta riqueza anunciada – os empresários daqui agora vão todos a correr para lá fazer negócios - e depois quem precisa trabalhar para viver, que é a maioria das pessoas, que vá a pé, se quiser. 24 quilómetros por dia, Fernando. Justiça?? Bah! Assim nunca pode haver. Os dirigentes angolanos devem achar isto normal…desculpam-se com o que gastaram na guerra que devastou o país, investem fortemente na imagem da promoção do país e depois isto, Fernando…
Aí há uns meses circularam via correio electrónico umas fotos apresentadas como sendo de um novo avião que o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, comprara a Israel…Desconheço se era verdade, mas nunca vi nenhum desmentido…Pelas torneiras douradas e pelo luxo da aeronave podes imaginar que bela rede de autocarros podia circular a esta hora entre Viana e Luanda. Se o maasai souber disto vai também ficar chocado de certeza. E quem sabe se não lhe chegou já a notícia?
Um justo abraço.
António Martins Neves



O que vi em Angola é chocante: o presidente, a família do presidente e os amigos que ele nomeou para o governo e altos cargos, consideram, na verdade, que tèm direito a todas as comissões nos negócios que fazem para o país. A corrupção que ficou do tempo da guerra ainda não é vista como tal. Acham que a Saúde Pública, a solidariedade social, etc, continuam a ser do âmbito das ONG’s