O carro à frente dos bois
Publicado por António Martins Neves 16 Setembro 2007 em Portugal.
Ansioso Fernando,
espero que tenhas descido do alto das escarpas e saciado esse teu desejo de verde, de proximidade com a vegetação, a natureza, que compreendo facilmente, pois eu faria igualzinho. Mas neste domingo queria propor-te um exercício menos ambiental: imagina que os camponeses cabo-verdianos semeavam o milho e a chuva não caía. Um ano. E outro e mais outro. Deixariam de semear o milho, certo? Bom, depois ocorreriam outras desgraças, mas fiquemos por este ponto apenas. Agora transfere a mesma atitude para um sistema onde se oferecem computadores a alunos que frequentam escolas onde cai o tecto das salas. É bem pior que não chover.
Pior mesmo só não chover aí e o tal campo de futebol continuar a ser usado para partidas porque o milho não ocupou o rectângulo de jogo.
É quase como a (falta de) chuva aí, a política de Educação que se vive por cá. Muita promessa, propaganda com fartura, mas depois quando se vai avaliar o que foi feito…
Vou poupar-te a leituras longas domingueiras, que os sábados à noite aí devem ser intensos: o primeiro-ministro daqui, José Sócrates, mais a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, quiseram fazer um ponto de ordem à mesa e cumprir algumas regras básicas com quem nenhum outro antecessor, aparentemente, pelo menos se preocupara.
Além de fecharem escolas isoladas e com poucos alunos, decidiram que todas as crianças da antiga primária passariam a entrar à mesma hora (nove da manhã) e ter estudo acompanhado, uma das formas de rebater a diferenciação entre estudantes de classes médias e altas e as menos favorecidas , registado no acompanhamento escolar dos filhos.
Esqueceram foi os tais ditos governantes que isso não era só estalar os dedos e já está. As escolas eles fecharam, com as câmaras metidas ao barulho. Já nos horários outro galo cantou. Ignoraram uma questão básica: muitas escolas dos centros urbanos não têm salas suficientes para todas as turmas terem aulas à mesma hora. Tem que ser uma espécie de sala quente: uns entram às oito da manhã. Para libertar o espaço a ocupar por outros que começam as aulas às 13,30. Duas desgraças! Os que têm que acordar cedíssimo e os que começam a “trabalhar” a meio do dia. Isso aconteceu no ano lectivo passado e eu testemunhei.
Outra “farsa” foi o estudo acompanhado, importante sem dúvida. Só que é preciso reunir as condições para que se concretize com eficácia. Conheci um caso onde era o vigilante da biblioteca que garantia esse tempo. Agora os computadores em banda larga e tal…Como se pode instituir novas tecnologias em escolas dirigidas por pessoas treinadas e incapazes de trabalhar com algo que não sejam papéis. Basta entrar numa secretaria de uma escola, como fiz há dias. E olhar: pilhas de folhas em todas as secretárias. Quase todas dispensáveis, certamente. Porque não fizeram as matrículas pela internet?. Não têm que ser as escolas a dar o exemplo? Os directores oferecem resistência? Outros haverá que concordam e querem avançar no bom caminho. E quantas escolas existem no ensino público com páginas na Internet para professores e pais trocarem informações e acompanharem o percurso escolar sem ser ser com a célebre caderneta que começa a ficar negra no Natal. Seria assim tão difícil? E o que isso poupava em tempo e recursos ao estado???
Agora oferecer computadores baratos a alunos de escolas onde a internet ainda é vista mais como uma forma de divertimento do que uma indispensável ferramenta de trabalho é que me parece menos eficaz do que semear milho em Cabo Verde sem saber se vai chover. Julgo que aí não há bois, daqueles das juntas, como aqui poucos sobrevivem, mas o governo português está a pôr a carroça à frente dos animais. Quem vai ensinar a conduzir, é suposto ter a carta, não é Fernando? Mas olha que nisto de ensinar, onde todos recolhemos mais do que distribuímos, não basta querer. Ou acontecer. É preciso saber e ter espírito aberto para inovar, sempre. E que chova muito por aí! Gostaria de ver um bocadinho desse verde que te alucina.
Um educado abraço.
António Martins Neves



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