Distendido Fernando,
as férias não proporcionarão os melhores motivos para escrever. A mim, assaltam-me as ideias nos momentos, mas depois esvaiem-se na hora de as transmitir. Quando não é logo ali, sem algo onde alinhavar aqueles arrelampamentos, lá se vai a ideia banal que parecia genial. Por essas e por outras, deixo-te alguns “quadros” de que pude usufruir nos últimos dias.
Um ilustrado abraço.
António Martins Neves
Refastelado Fernando,
quando começou a guerra na Geórgia fui aqui à estante reler o que escrevera sobre aquele país o falecido grande repórter Ryszard Kapuscinski no livro “O Império” quando por lá passou em 1967, em pleno vigor da depois extinta União Soviética. Lembrava-me que o destaque principal era sobre a forma como os georgianos faziam conhaque. Esquecera-me do pormenor de que a célebre aguardente - nascida por aquelas bandas do Cáucaso (é a bebida nacional na vizinha Arménia), onde a humanidade também deu os primeiros passos – é avessa a agitações e violências.
As sombras, as nuvens, os montes e o Vasco
0 comentários Publicado por Fernando Peixeiro 16 Agosto 2008 em Cabo Verde. 
Caro amigo,
demorei algum tempo a responder-te que tenho estado a pensar em quem seria o homem de bigodinho, alemão, que falaste. Tem mesmo de ser de outro país que em Cabo Verde não é costume encontrar homens de bigode. E olha… mulheres ainda menos. E barba igual, nem eles nem elas. Cabelo curto quase sempre, mais eles que elas. Há tempos conheci um que tem barba e bigode. Vasco. Músico.
Ouvi uma mulher chorar
9 comentários Publicado por António Martins Neves 10 Agosto 2008 em Portugal.
Distendido Fernando,
ouvi uma mulher a chorar em directo na televisão.Telefonou para um daqueles programas de desabafos que se chamam sugestivamente Opinião Pública e lavou-se em lágrimas. Disse que era brasileira e estava num farrapo. O assalto a um banco em Lisboa realizado por conterrâneos agravaram-lhe ainda mais o sentimento de segregação que já vinha sentindo pelo sotaque. É assim que se vive na União Europeia, no século XXI. E muito pouca gente se importa. Acho que a maioria até elogia, a avaliar pelo que se lê na Internet.
Nem mais uma fatia, se fazem o favor
1 comentário Publicado por Fernando Peixeiro 4 Agosto 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Se há tipos de pessoas sobre as quais não gosto muito de te falar nas minhas cartas os políticos é um deles. Mas hoje não resisto a citar-te o primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves. Há três dias pediu ao povo que deixasse de comer carne de tartaruga. É que de tartarugas sim, de essas gosto de falar.
Amor, duas bicicletas e uma tenda
1 comentário Publicado por António Martins Neves 1 Agosto 2008 em Portugal.
Veraneante Fernando,
amor, duas bicicletas e uma espécie de tenda. Isso mesmo: uma receita diferente da habitual, mas que apresenta resultados surpreendentes: o casal andou quatro anos nas máquinas de pedalar, que resistiram admiravelmente e tudo se prolongou por longos 38 mil quilómetros. Começou na Suiça e acabou na Tailândia.
Tive uma caixa cheia de botões
1 comentário Publicado por Fernando Peixeiro 30 Julho 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Sabes aquelas pessoas que ao fim de cinco minutos de conversa já não sabes como começou? Luísa Queirós é assim. Passei uma tarde com ela e não me importei nada.

Descansado Fernando,
ficou-me aquele matraquear para a vida. Depois de um dia exaustivo de viagem e das malas arrumadas, o mundo virava e eu podia ver outra página. Logo ao acordar. Os cascos dos burros, das mulas, um cavalo ou outro, que desfilavam ali à frente do quintal, rente ao muro de pedra. Ainda o sol não se tinha erguido e já a vida desfilava ali nos meus ouvidos. Era só vestir-me a correr e observar as pessoas a rumarem lentamente à procura da vida, que veria depois em cima daquelas lombadas no regresso, quando o calor já apertava.
Caro amigo
Vou falar-te de como se passa uma tarde à conversa virado para a baia do Mindelo, na ilha cabo-verdiana de S. Vicente. Vou falar-te do sonho de um homem que vive com dois pianos e detesta as modernices de Paris. Vou falar-te de um caderno de onde saem quadros. De uma caixa cheias de botões. Até da Adelaide, que pede dinheiro para dar de comer aos filhos mas que tem lábios com sabor a aguardente. Vou falar-te tudo isso nos próximos dias. Estou desde ontem em Portugal mas não te preocupes que trago na memória Cabo Verde. Tenho sono. Muito sono.
Um rápido abraço
Fernando Peixeiro
Fernando,
a Marisa Serafim mandou-nos esta carta da Guiné-Bissau. Aqui a deixo. Vais gostar.


