Instantâneos

Distendido Fernando,

as férias não proporcionarão os melhores motivos para escrever. A mim, assaltam-me as ideias nos momentos, mas depois esvaiem-se na hora de as transmitir. Quando não é logo ali, sem algo onde alinhavar aqueles arrelampamentos, lá se vai a ideia banal que parecia genial. Por essas e por outras, deixo-te alguns “quadros” de que pude usufruir nos últimos dias.

Um ilustrado abraço.

António Martins Neves

Refastelado Fernando,

quando começou a guerra na Geórgia fui aqui à estante reler o que escrevera sobre aquele país o falecido grande repórter Ryszard Kapuscinski no livro “O Império” quando por lá passou em 1967, em pleno vigor da depois extinta União Soviética. Lembrava-me que o destaque principal era sobre a forma como os georgianos faziam conhaque. Esquecera-me do pormenor de que a célebre aguardente - nascida por aquelas bandas do Cáucaso (é a bebida nacional na vizinha Arménia), onde a humanidade também deu os primeiros passos – é avessa a agitações e violências.

 foto de omar camilo para lusa

Caro amigo,

demorei algum tempo a responder-te que tenho estado a pensar em quem seria o homem de bigodinho, alemão, que falaste. Tem mesmo de ser de outro país que em Cabo Verde não é costume encontrar homens de bigode. E olha… mulheres ainda menos. E barba igual, nem eles nem elas. Cabelo curto quase sempre, mais eles que elas. Há tempos conheci um que tem barba e bigode. Vasco. Músico.

Distendido Fernando,

ouvi uma mulher a chorar em directo na televisão.Telefonou para um daqueles programas de desabafos que se chamam sugestivamente Opinião Pública e lavou-se em lágrimas. Disse que era brasileira e estava num farrapo. O assalto a um banco em Lisboa realizado por conterrâneos agravaram-lhe ainda mais o sentimento de segregação que já vinha sentindo pelo sotaque. É assim que se vive na União Europeia, no século XXI. E muito pouca gente se importa. Acho que a maioria até elogia, a avaliar pelo que se lê na Internet.

Caro amigo

Se há tipos de pessoas sobre as quais não gosto muito de te falar nas minhas cartas os políticos é um deles. Mas hoje não resisto a citar-te o primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves. Há três dias pediu ao povo que deixasse de comer carne de tartaruga. É que de tartarugas sim, de essas gosto de falar.

Veraneante Fernando,

amor, duas bicicletas e uma espécie de tenda. Isso mesmo: uma receita diferente da habitual, mas que apresenta resultados surpreendentes: o casal andou quatro anos nas máquinas de pedalar, que resistiram admiravelmente e tudo se prolongou por longos 38 mil quilómetros. Começou na Suiça e acabou na Tailândia.

Caro amigo
Sabes aquelas pessoas que ao fim de cinco minutos de conversa já não sabes como começou? Luísa Queirós é assim. Passei uma tarde com ela e não me importei nada.

Descansado Fernando,

ficou-me aquele matraquear para a vida. Depois de um dia exaustivo de viagem e das malas arrumadas, o mundo virava e eu podia ver outra página. Logo ao acordar. Os cascos  dos burros, das mulas, um cavalo ou outro, que desfilavam ali à frente do quintal, rente ao muro de pedra. Ainda o sol não se tinha erguido e já a vida desfilava ali nos meus ouvidos. Era só vestir-me a correr e observar as pessoas a rumarem lentamente à procura da vida, que veria depois em cima daquelas lombadas no regresso, quando o calor já apertava.

Muito sono

Caro amigo

Vou falar-te de como se passa uma tarde à conversa virado para a baia do Mindelo, na ilha cabo-verdiana de S. Vicente. Vou falar-te do sonho de um homem que vive com dois pianos e detesta as modernices de Paris. Vou falar-te de um caderno de onde saem quadros. De uma caixa cheias de botões. Até da Adelaide, que pede dinheiro para dar de comer aos filhos mas que tem lábios com sabor a aguardente. Vou falar-te tudo isso nos próximos dias. Estou desde ontem em Portugal mas não te preocupes que trago na memória Cabo Verde. Tenho sono. Muito sono.

Um rápido abraço

Fernando Peixeiro

Fernando,

a Marisa Serafim mandou-nos esta carta da Guiné-Bissau. Aqui a deixo. Vais gostar.




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