
Descansado Fernando,
ficou-me aquele matraquear para a vida. Depois de um dia exaustivo de viagem e das malas arrumadas, o mundo virava e eu podia ver outra página. Logo ao acordar. Os cascos dos burros, das mulas, um cavalo ou outro, que desfilavam ali à frente do quintal, rente ao muro de pedra. Ainda o sol não se tinha erguido e já a vida desfilava ali nos meus ouvidos. Era só vestir-me a correr e observar as pessoas a rumarem lentamente à procura da vida, que veria depois em cima daquelas lombadas no regresso, quando o calor já apertava.
Caro amigo
Vou falar-te de como se passa uma tarde à conversa virado para a baia do Mindelo, na ilha cabo-verdiana de S. Vicente. Vou falar-te do sonho de um homem que vive com dois pianos e detesta as modernices de Paris. Vou falar-te de um caderno de onde saem quadros. De uma caixa cheias de botões. Até da Adelaide, que pede dinheiro para dar de comer aos filhos mas que tem lábios com sabor a aguardente. Vou falar-te tudo isso nos próximos dias. Estou desde ontem em Portugal mas não te preocupes que trago na memória Cabo Verde. Tenho sono. Muito sono.
Um rápido abraço
Fernando Peixeiro
Fernando,
a Marisa Serafim mandou-nos esta carta da Guiné-Bissau. Aqui a deixo. Vais gostar.
Vivido Fernando,
arrisco que também bebeste laranjadas quentes. Sei que já nem há tal bebida e abundam os frigoríficos, mas esse espírito acutilante formou-se no tempo em que predominavam aquelas bebidas amareladas e as baixas temperaturas eram mais garantidas por um poço do que pela electricidade. Ocorreu-me isto tudo há dias quando passei num local daqueles que não deixam marcas mas ficam registados na memória. Porque bebi lá laranjadas quentes.
Caro amigo
Já tu ouviste falar alguma vez no IILP? Instituto Internacional da Língua Portuguesa. Não pois não? E da CPLP? Ah! Isso sim! Pois o IILP foi criado antes da CPLP por todos os países que falam Português. Tem sede aqui, na Cidade da Praia. E não serve para nada. É um filho que os pais abandonaram e até hoje, como quase todos os casos do género, ninguém entende porquê.
Espantado Fernando,
o meu silêncio tem uma justificação muito simples: não foi nenhuma âncora que arrancou o cabo que leva e trás esta correspondência, também não faltou a luz por carência de combustível para geradores que não existem, mas tudo se resumiu a confiar nas novas tecnologias que depois falham assim como as notas falsas. Quando estamos a contar com elas afundam-nos, arrasam-nos a reputação, empurram-nos para a cadeia… um chorrilho de desgraças. Descansa que não me aconteceu tudo isto, mas quase podia.
Doeu? Como é que te sentes?
0 comentários Publicado por Fernando Peixeiro 13 Julho 2008 em Cabo Verde.Caro amigo
Como andas por aí muito caladinho, que nem sinais de fumo tenho de ti, estou a escrever-te só para deixar um desabafo. É sobre os jornalistas e a comunicação social. Eu acho que às vezes lhes deviam pagar só para eles estarem calados.
Achada Baleia, três da manhã
3 comentários Publicado por Fernando Peixeiro 9 Julho 2008 em Cabo Verde.
Caro amigo
Não sabemos nós, claro, o que se passa na terra ou no mar que o avião em que viajamos sobrevoa. De dia vêem-se contornos, às vezes casas e estradas se o aparelho voa baixinho, como o tal crocodilo russo. De noite são apenas as luzinhas que nos prendem, se prendem, à janela. Há três dias, quem viajava da Praia para Lisboa no avião da TAP e se estivesse atento e viajasse do lado esquerdo, poderia talvez ver por breves instantes uma luz no meio de coisa nenhuma, escassos minutos depois de levantar voo. Poderia ser um barco, as luzes de uma casa, porque para farol de carro eram muito ténues. Não imaginaria que naquele momento cinco malucos andavam rebolados na areia, quase às três da manhã.
Regozijado Fernando,
venho propor-te hoje que levantes um copo e façamos um brinde a essa mulher corajosa chamada Ingrid Betancourt, libertada numa operação militar - daquelas que só costumam acontecer nos filmes - depois de mais de seis anos sequestrada por uma organização de guerrilheiros colombiana.O “crime” que cometeu? Ter sido candidata a presidente da República da Colômbia e recusar ceder às ameaças e à chantagem de quem a queria calar, evitando que denunciasse a corrupção instalada no país.
Caro amigo
Escrevo-te no dia em que atolei o jipe na lama, que não tive água para me lavar mas a varanda dava para um banho de imersão, que não fui a uma festa por estar doente e fui à praia apesar do calor. Coisas estranhas se estarão a passar por lá, pensarás tu.


