Macabra

Caro amigo

Falei-te na última carta de vidas tristes e bairros igualmente tristes aqui de Maputo e venho hoje dar-te conta de mais algumas tristezas. A tristeza de dois rapazes, presos há dois meses, a tristeza de uma cabra violada, e a tristeza dos seus donos, que não sabem o que fazer com uma cabra violada.
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O novo bispo de Maliana

Memorado Fernando,

hoje acordei a ouvir a notícia de que Timor-Leste passou a ter um terceiro bispo, que terá a seu cargo a diocese de Maliana, na zona Ocidental do país, junto à fronteira  com a Indonésia. Quando ouvi o nome, recuei dez anos na memória e recordei-me que conhecera um padre chamado Norberto Amaral, em Maubisse, quando estive lá, antes da independência e depois da devastação indonésia causada por militares e  milicianos. Não me enganei. Foi o padre que entrevistei em Mauibisse – a “Sintra timorense” – na horta, de galochas, quando preparava a terra para semear batatas.

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Vidas tristes

Caro amigo

Tenho andado um pouco arredio, não que me tenha esquecido de te escrever mas porque o trabalho tem sido muito e ando há uns dias com uma dorzinha chata de estômago, que me tira a paciência para tudo. Nada comparado com as vidas de pessoas que conheço aqui, que recebem antiretrovirais de graça mas que não têm sequer um bocadinho de arroz para comer. São, caro amigo, as lutas diárias nos bairros de Maputo, onde não é fácil viver, tampouco sobreviver.
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Primavera

Tropical Fernando,

terminou hoje um dos invernos mais chuvosos de que há memória no país. Oficialmente, começou a primavera e o tempo confirma: está sol, céu limpo, 18 graus de temperatura. Se a natureza cumprir, o que já não é garantido, os cucos devem ter chegado hoje daí, de África, e já se devem fazer ouvir aqui, pelos bosques. A água dominou nos últimos três ou quatro meses, mas agora remeteu-se às evidências.

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“Porquê?porquê?porquê?”

Ele “noventa e…”, ela lá perto. Vão os dois ao ritmo que a idade permite, pelo passeio. Ela agarrada ao braço dele, como um casal “à antiga”. Nota-se que os corpos se deixaram vergar pelos anos, caminham tortinhos. Ela ligeiramente mais atrás, braço quase esticado para não deslocar do braço dele, toda discrição. As honras são mesmo para ele.

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Caro amigo

O Eugénio trabalha comigo. Ontem, disse-me, estava um pouco triste: tinha recebido um telefonema durante a tarde, uma sobrinha tinha morrido. “De cobra”. O curandeiro disse que ela morreu porque mataram a cobra depois de ela ter atacado a sobrinha, explicou ele. Não me disse quantos filhas tinha, só me disse “vai para lá uma carrada de órfãos”.
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Parti a caneta

Resistente Fernando,
parti a caneta. Isso mesmo: escapou-se-me das mãos e foi direitinha ao chão de mármore do pátio da entrada. O aparo abriu-se, arreganhado, e nunca mais foi capaz de deixar sair um gatafunho que fosse. Não foi coisa recente. Há já uns meses que deixei de tomar notas com aquela vulgar caneta. Continuo a registar no papel, mas não é a mesma coisa. O que me consola é que ela vai voltar a exercer. Com um aparo novo. Telefonaram-me há dias a dizer: “A sua caneta vai ser reparada. Está na Suíça…”.
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Caro amigo

Duas semanas em três cidades tipicamente europeias e aqui estou eu de novo em Maputo, a “minha África”, a minha casa. Não te vou falar da África do Sul, de como os campos são bonitos e bem tratados, das paisagens maravilhosas, dos parques, da vida selvagem. Nem sequer da simpatia do povo, que a tem, ou da insegurança de Joanesburgo, que também a tem. Fixo-me no João, engenheiro, trabalha em Pretória.
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Um grande país

Caro amigo

É quase meia-noite em Pretória. Uma noite fresca e sem chuva, como foi o dia de hoje em Joanesburgo. Estou há quase uma semana pelas terras do Rand e escrevo-te em formato bilhete-postal, que a esta hora estou cansado e amanhã é mais um dia cheio de trabalho.
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Uma ou duas semanas

Caro amigo

Imagino-te aí saturado de tanta água, como eu quando aí estive, mas ao escrever-te é o calor que me aflige mas também a falta dela. O Verão está ao rubro em Maputo e a cidade continua bonita, agora já de acácias vermelhas e amarelas, às vezes colorindo só os passeios, outras as bancas de vendedores ou quem dorme à sua sombra, coisa normal nas ruas desta cidade. E no entanto tenho já saudades de Lisboa.
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