Num tempestuoso dia de sol

Esperançado Fernando,

escrevo-te neste dia 25 de Abril de 2011, quando o verão parece estar a entrar, mas o inverno teima em apoderar-se das nossas almas, depois de já nos dominar tudo o resto, carteira incluída. Esperança, sonho, mais esperança e todos os sonhos do mundo enchem os discursos de quem se sente obrigado a justificar-se perante o esta- do a que “isto” chegou. Há 37 anos que é assim e tu ou eu podemos testemunhá-lo, para além de mais uns milhões largos de espetadores do que tem sido este espetáculo de gerir a dívida em vez de governar o país.

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Um tipo desenrascado

Civilizado Fernando,

também já ouviste dizer que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo, que as aparências iludem, olhem para o que ele faz e não para o que diz e outros ditados, lugares comuns e afins. Fiquei ainda mais crente na sabedoria popular quando há dias conheci pela televisão e depois pelos jornais uma história de um cavalheio “bem posto na vida”, como se dizia, que tem originado centenas de notícias nos anos recentes por ver o seu nome associado a situações entregues à justiça por suscitarem dúvidas que têm a ver com corrupção e crimes afins. Um ex-ministro de quem o atual chefe do governo anunciou ser amigo pessoal. O homem confirmou o que já se sabia há muitos anos: que é um tipo desenrascado, para me socorrer de um adjectivo cheio de atualidade. O verdadeiro significado do comportamento fala por si e tu concluirás do calibre do indivíduo, para usar também um substantivo muito em voga nos noticiários.
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Uma vida pesada

Caro amigo

Franque Cossa é um jovem de 20 anos, reservado e honesto. Anda aqui pelas ruas de Maputo, todos os dias, com uma balança de cozinha debaixo do braço. E não é maluco mas sim um “empresário por conta própria”, a cobrar dois meticais a cada pessoa que pesa. Num país com níveis de desemprego que nem imaginas, Franque é imaginativo, desenrascado, e “pesador”!
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A “dona” do Sol

Iluminado Fernando,

há boas ideias que valem ouro, muito, milhares de milhões de euros, como o caso do Facebook. Há outras, geniais mesmo, tão evidentes como o ovo de colombo, mas cujo efeito é nulo além de uma boa gargalhada. É o caso de uma espanhola, galega, que decidiu registar o Sol como sua propriedade. Se fosse cá, ainda se podia pensar que se trataria do jornal semanário, até há meses em alegadas dificuldades financeiras. Mas não, é mesmo da estrela que se trata. E conseguiu um notário que formalizou a posse requerida em ata. A ser assim, o Sol continua a brilhar para todos, mas passou a ser só de uma: Ángeles Durán.
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Novembro, mês de Carlos Cardoso

Caro amigo
Faz hoje 10 anos mataram aqui em Maputo um jornalista que andava a investigar o maior escândalo financeiro de que o país tem memória: 14 milhões de euros desviados de um Banco. Carlos Cardoso morreu em Novembro, como em Novembro morreram dois dos que poderão ter estado implicados na sua morte.
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À venda

Afastado Fernando,

eram uns quatro, pequenos e magros, de olhos rasgados como os conhecemos. Havia uma mulher.Enquanto uns observavam a frente do edifício a alguns metros de distância, outro chegou-se à porta de vidro, encostou-lhe a ponta do nariz e colocou as mãos em concha dos lados da cara para travar a luz e conseguir ver para dentro do espaço amplo e vazio.Pensei:“Já está…”. Mas passaram-se vários meses sem que nada acontecesse ao ponto de eu achar que me tinha enganado na vaticínio. Acabou por se confirmar. Há umas semanas começaram as obras e a nova loja dos chineses já foi inaugurada.
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Caro amigo

Na Avenida Julius Nyerere, um das principais de Maputo, juntam-se ao fim do dia vendedores de flores na esquina do Polana. Muitos, espreitando cada carro, fintando os que arrancam no semáforo, numa urgência de aproveitar a hora de ponta para ganhar algum dinheiro. Pelo meio há os mais pequenos a pedir uma moeda “para pão”, uma mulher cega rua adiante, duas ou três idosas na esquina do restaurante Mundos. É assim avenida fora. Mais ao fundo está por vezes a polícia, basicamente a fazer o mesmo: manda parar os carros e pede “um refresquinho”, e a uma centena de metros mais alguém a vender cartões de recarga de telemóvel, por esta altura também morangos ou laranjas. E mais umas crianças a pedir uma moeda porque “tá mal patrão, tá muito mal”. Está pois!
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Tragédia com nêsperas

Folgado Fernando,

há um ditado que diz: quando estamos em maré de azar, até os cães nos mijam para as pernas. Sem dúvida que às vezes há quem deva ver o mundo a abrir-se-lhe debaixo dos pés sem  que consiga evitar a queda no abismo. E termina mesmo em tragédia, embora até na morte haja quem opte por não perder a dignidade nem desista de pensar nos que cá ficam. Venho hoje contar-te a história de uma família que ficou reduzida a uma criança de fraldas em pouco tempo  e do papel de uma nespereira na trama.
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Se calhar vou matar uma vaca

Caro amigo

Não tem sido fácil a minha vida, por aqui, neste último mês. Inundações, avarias, e depois mais inundações e avarias. A minha casa a meter água porque sim, dois computadores doidos porque sim, o carro e a máquina de filmar. Agora, para terminar em beleza, roubaram-nos mais um computador à hora de almoço. Levaram-no debaixo do braço, debaixo dos nossos narizes. Se calhar vou ter de matar uma vaca.
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Crime sem castigo

Afastado Fernando,

foi no momento em que levantei os olhos do artigo sobre a responsabilidade dos pais na educação dos filhos que vi o gesto fatal.
Tirou o último cigarro, amachucou o maço e pimba! atirou-o para a calçada da rua, junto ao passeio, no intervalo entre dois carros estacionados. Estudos e sondagens sobre civilidade pouco podem contra a dura realidade revelada nos pequenos gestos. Dizem-nos que já somos assim e assado, mas atiramos lixo para o chão com a naturalidade de quem respira. A teoria e a prática, a ficção e o real, o que parece e o que é, o que lemos e o que vemos, o que nos garantem e o que sentimos.
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