Caro amigo
Há um polícia com frio, as pêra abacate em flor e uma bomba de água que morreu durante as minhas férias. Um dia quente, outro cinzento e ventoso e um homem a quem os pais não tinham nome para lhe dar que anda no meu sótão às voltas com a tal bomba.

Refastelado Fernando,
no dia mais animado do ano, enquanto te imagino espojado nos areais de Santo André ou lá por perto, nessas merecidas férias à beira de casa, há momentos que fazem a diferença aqui em Lisboa, donde a maioria dos habitantes desertou para locais ditos de férias e a cidade pode ser vivida de modo mais intenso do que no resto do ano. Registei o quadro que te envio.

Omnívoro Fernando,
anda aqui um grupo de pessoas a querer formar um partido para defender os outros animais, os irracionais. Que o resto não lhes interessa, os bichos sim estão desprotegidos e é preciso deputados de duas pernas para fazer valer os interesses de cães, gatos, bovinos, caprinos e seus semelhantes. Eles sentem-se mandatados para isso e andam a recolher assinaturas de…outras pessoas. Assim à primeira vista, parece meritório. Se tentarmos ver para além da cortina de fumo, não encontro benevolência na atitude.
Caro amigo
Hoje venho falar-te de duas pessoas mas descansa que tenho aí, para breve, uns animais em que quero descascar. Mas hoje estes não. São pessoas pessoas, ele era deputado aqui na Assembleia da República de Moçambique, presidente da Comissão de Luta contra a Sida e cantor, entre mil outros afazeres. Ela também era deputada, da bancada da oposição, a Renamo, e vive em Nampula, quando a Assembleia está fechada. E é a rainha de Nampula.
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Racional Fernando,
histórias com bichos é o que te trago hoje. Não somos só nós que lhes entramos pela vida, eles também nos invadem o quotidiano, umas vezes inofensivamente, outras nem tanto. Chegam a ser úteis nalgumas alturas, aterrorizam-nos ingenuamente noutras poucas. São animais com que temos que conviver e nem vale a pena pensar em cortar a relação porque eles não estão interessados nisso.
Breve relato de um apagão
2 comentários Publicado por António Martins Neves 4 Julho 2009 em Portugal.
Discreto Fernando,
entraram e ficaram logo ali naquele recanto do balcão, ao pé da porta, sem trocarem palavra. Impávidos. Ela apoiou os cotovelos no vidro e colocou as duas mãos por baixo do queixo, os dedos semi-entrelaçados numa pose ensaiada. Usava um vestido preto, solto, apertado na cintura. Sem mangas e pelo joelho. A sua silhueta não passava despercebida, embora fosse magra, pernas e braços finos. Andava em cima de umas sandálias muito altas e pretas também. Parecia muito elegante. Ele não encaixava ali. Usava fato claro sem gravata, camisa às riscas, semi-calvo como um frade franciscano, grisalho.
Dançando à beira do abismo
1 comentário Publicado por Fernando Peixeiro 30 Junho 2009 em Moçambique.Caro amigo
Li num livro, quando era pequeno, que os lêmingues se suicidam atirando-se de penhascos, ao que me lembro um ritual de sobrevivência da espécie. Guardei essa ideia durante anos, a dos pequenos animais precipício abaixo para que as novas gerações pudessem viver. Mais tarde vim a saber que afinal não era bem assim, que não se suicidam, e confesso-te que até perderam para mim uma certa magia. Voltei a lembrar-me deles aqui. Os moçambicanos fazem-me lembrar a história, a antiga, dos lêmingues. Só que sem magia.
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Viajado Fernando,
fui ao Porto! À Invicta, isso mesmo. E nada de trabalho: foi mesmo passeio e contemplação puros. Num domingo encalorado, o Sol estava escaldante, como se pairasse ali logo por cima da Rotunda da Boavista.
Caro amigo,
a coisa começou por ser de vez em quando mas agora piorou. Quanto tento entrar na nossa página de correspondência a Internet não me deixa.
Caro amigo
Sabias tu que, no futuro, a linha de costa em Moçambique pode recuar até 500 metros? E que a barragem de Cahora Bassa pode ficar sem água suficiente para produzir energia? Que os portos da Beira e de Quelimane podem estar em risco? Que a baixa de Maputo pode desaparecer? São previsões catastróficas, parecem, mas quem entende disso garante que são antes realistas.
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