Caro amigo
Vou hoje começar por te dizer uma coisa óbvia. Duas. A primeira é que não sou africano e a segunda é que nunca vou ser especialista em assuntos africanos, tanto mais que estou cá há pouco tempo e não vou ficar assim tanto. Mas olha, na minha inocência acho que entra pelos olhos dentro, os da cara como sabiamente os mais velhos dizem na minha terra, que em Africa nunca vai vingar o Pan-Africanismo.
Mas onde é que este quer chegar?”, deves estar tu a perguntar agora. Pois a lado nenhum, é o que me parece do meu olhar rasante sobre as questões de África, longe de a entender e sequer de ter essa pretensão, pelo que me socorro de outros para vir para aqui dizer-te o que às vezes me faz pensar.
E o homem que me levou a pensar nisto chama-se Issa Shivji, é professor de Estudos Pan-Africanos na Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, e veio a Maputo há dias falar de África e da sua, dele, utopia.
E disse, quanto a mim, algumas verdades, traçando um quadro negro do continente, onde o neo-liberalismo teve “um efeito devastador” nas sociedades africanas, desregulando economias, diminuindo os Estados, rebaixando o papel dos trabalhadores.
E deu exemplos, nada que sequer me soasse estranho. Como aquele de que os hipermercados em Dar es Salaam destruíram as indústrias locais e os pequenos produtores, completamente incapazes de vender saquinhos todos iguais de cebolas todas iguais.
E depois apareceram as escolas para ricos e os hospitais para quem tem dinheiro e houve crescimento, mais do que no Ocidente. E os bancos floresceram, inexplicavelmente porque os pobres continuam pobres e são a maioria. Porque essa, disse, é a verdade: os países crescem mas a pobreza não se reduz. Alguém anda a fazer mal as contas, num continente cheio, apinhado, à cunha, a transbordar de programas estratégicos de redução da pobreza.
São erros atrás de erros. Como os esforços, o dinheiro que se gasta, para combater a malária, uma doença que matou quatro pessoas no tempo que tu levas a ler isto. Aqui em Moçambique mesmo, onde se sucedem as distribuições de redes mosquiteiras, e onde há pessoas que os recebem, agradecem, e depois pegam neles e fazem redes de pesca.
É sinal claro de que as pessoas querem é comer. Li isto ontem aqui num jornal e achei que estava certo. Porque a malária as preocupa mas se calhar está em quinto lugar nas prioridades. A primeira é comer. Peixe ou o que seja. E quem distribui as redes mosquiteiras não tenta perceber primeiro quais as necessidades dessa gente.
Portanto, meu amigo, abreviando que não quero chegar à meia dúzia de vítimas, Issa Shivji diz que a solução para África é o Pan-Africanismo: a unidade política do continente e o reagrupamento das etnias, porque “o projecto saído da descolonização fracassou”.
“Tem de ser o Pan-Africanismo enraizado nas comunidades. Significa que os Estados existentes deverão ser considerados Estados de transição”. Porque o neo-liberalismo morreu e os poderes capitalistas estão tão entretidos em tentar reanima-lo, reescrevendo as regras, sem perceber que o problema não é as regras mas o próprio jogo.
Concordo em parte. Mas não acredito no Pan-Africanismo. Este continente está tão pejado de pequenos ditadores e gananciosos que nunca irão abdicar dos seus poderes em nome de alguma coisa maior, ainda que possa ser muito melhor.
Issa Shivji é um optimista. Reconhece que ele nunca verá os Estados Unidos de África e os seus sucessos mas que os seus filhos “will see it”. Will see it? Nem os netos. Acho. Mas se calhar também sou optimista.
Um abraço
Fernando Peixeiro



As ditaduras existem em todo o lado e sob todas as formas. Desde o nosso próprio posto de trabalho até aos grandes estados. Às vezes simuladas e outras nem por isso… Eliminar os que “comem tudo e não deixam nada” é impossível Seja em África ou na Suécia… Mas esta é a minha visão nada optimista, porque acho que em todas as escalas, há sempre alguém a tentar tirar proveito de “outro alguém”.
Beijinhos
Catarina