Caro amigo
Tenho andado um pouco arredio, não que me tenha esquecido de te escrever mas porque o trabalho tem sido muito e ando há uns dias com uma dorzinha chata de estômago, que me tira a paciência para tudo. Nada comparado com as vidas de pessoas que conheço aqui, que recebem antiretrovirais de graça mas que não têm sequer um bocadinho de arroz para comer. São, caro amigo, as lutas diárias nos bairros de Maputo, onde não é fácil viver, tampouco sobreviver.
Dou-te só o exemplo de três bairros de Maputo, rodeados de estradas que fazem a ligação para o norte, a passar carros dia e noite com pessoas que nem sonham que ali ao lado há outras pessoas que acordam de manhã sem a mínima ideia onde vão encontrar um pouco de comida. E sabem que têm um comprimido para tomar que lhes vai “rebentar” o corpo em jejum, debilitado pela Sida, pela vida madrasta de tantos anos. Às vezes, tristemente, de tão poucos anos.
Malhazine, Jorge Dimitrov e Zimpeto são os três bairros de que te falo. Dos que mais altas taxas de incidência de HIV têm, porque ficam paredes meias com quartéis militares. De tempos a tempos chegam novas fornadas de jovens, das províncias, e quando assentam praça querem festa. E procuram-na nas moças dos bairros à volta, nas ruas, nas chamadas “casas de pasto”, que já imaginas o que é.
“Cada período aparecem novos militares e cada um quando chega tem de ter o seu parceiro”, contou-me José Júlio, da Associação Yinguisseta, que pouco mais pode fazer do que dar apoio moral e fazer encaminhamento dos doentes
A Rosalina Langa, de 28 anos e um filho para criar. Por exemplo. Ar doente, magra, pois claro. Rosalina faz parte de uma grande família de irmãos, todos desempregados. Não tem pai e a mãe consegue por vezes algum dinheiro a lavar roupa. E tem dois comprimidos para tomar todos os dias, nem que para isso tenha de ir de casa em casa, pedir um pouco de comida. Uma chávena de arroz.
“Às vezes acordo de manhã e não tenho açúcar nem nada para tomar chá, mas às 08:00 sou obrigada a tomar medicamento. E não posso parar de tomar porque na hora que parar vou provocar muitas coisas”. Lúcia Carlos Novela tem 24 anos, o corpo deformado pelo Sarcoma de Kaposi e uma visão lúcida da vida, embora pouco mais lhe reste. É otimista esta mulher, cheia de força, bonita.
Mas nem todos têm esta força, caro amigo. A Márcia, por exemplo, é uma das milhares de pessoas de Moçambique que deixaram o tratamento. “Fazia (o tratamento) mas já parei, já não estou a cumprir. Quando eu me levantava tinha de tomar e eu não tenho comida. Costumava cair, ter tonturas, perder as forças, ter diarreias e dores de estômago por causa dos comprimidos, por isso parei”. Palavras da Márcia. Eu acho que a entendo.
Ter um filho de dois anos, ser órfã e acordar de manhã sem fazer ideia onde arranjar alguma coisa para comer. Ter esperança que alguém lhe dê algum dinheiro a troco de carregar água, para comprar pão e tomate, a sua dieta, quando pode. É carga demasiado para a Márcia.
Vidas difíceis caro amigo. A Rosalina, a Lúcia, a Márcia… Mas também a Adelina, 23 anos, órfã, dependente de uma tia vendedora de amendoim pelas ruas de Maputo, a Felismina, 45 anos, viúva, cinco filhos e sem trabalho, a Rosita, viúva, três filhos pequenos e sem forças para sair de casa sequer, a Felismina Enoque, viúva, quatro filhos e dois netos, uma palhota por casa, sem água, sem luz, sem trabalho, sem comida e sem forças.
Não são nomes inventados caro amigo. São realidades do Zimpeto, de Malhazine, de Jorge Dimitrov e de muitos outros bairros de Maputo, onde cerca de 30 por cento das pessoas estão infetadas, num país com 70 por cento de desempregados. Dos mais pobres do mundo.
São vidas tão tristes. E tão invisíveis. E tão esquecidas.
E tão reais! Gostava de te poder dizer agora que eram invenções minhas. Mas elas existem, aqui à volta das boas casas de Maputo. Até quando eu não sei.
Amanhã vou ao médico.
Um abraço
Fernando Peixeiro

