Uma ou duas semanas

Caro amigo

Imagino-te aí saturado de tanta água, como eu quando aí estive, mas ao escrever-te é o calor que me aflige mas também a falta dela. O Verão está ao rubro em Maputo e a cidade continua bonita, agora já de acácias vermelhas e amarelas, às vezes colorindo só os passeios, outras as bancas de vendedores ou quem dorme à sua sombra, coisa normal nas ruas desta cidade. E no entanto tenho já saudades de Lisboa.
Como tinha, na verdade, de Maputo quando aí estive. Da confusão das ruas, com carros a virar para todos os lados ou a parar sem qualquer sinalização, os homens a carregar carrinhos cheios de fruta em plena via, a complicar ainda mais, os mais atrevidos a largar os automóveis mesmo no meio de uma rotunda.
Ou então das pequenas bancas em cada esquina, aqui mesmo ao lado na 24 de Julho, onde se compram cenouras, e batatas, e tomates a 40 meticais o quilo, e ovos a 30, e cigarros a vulso. A calma das pessoas, que muitos chamam indolência mas que é só uma maneira diferente de gerir o tempo, porque por aqui tudo se passa muito mais devagar.
Para quem vive aqui uns tempos e faz depois uma viagem de metro, no Inverno de Lisboa, entre Alvalade e Jardim Zoológico, mudando de linha duas vezes, que diferença na expressão das pessoas, nas cores e na falta de alegria, na pressa, nos olhares para os relógios. Aqui ainda se vive sem eles e também há os que os usam mas só para mostrar que têm, porque na verdade nem funcionam. Nem faz falta.
E no entanto tenho saudades de Lisboa.
Não sei se faz bem à saúde estar assim dividido mas acontece-me sempre que viajo e durante uma ou duas semanas. Querer estar lá quando estou cá, querer estar cá quando estou lá. Tenho saudades da ordem de Lisboa e tenho saudades da desordem de Maputo.
No próximo ano devo de regressar definitivamente a casa. E quando isso acontecer não tenho dúvidas que vou ter muitas saudades da luz e do sol de Maputo, de ver de tudo à venda em cada esquina, dos jovens que me vendem cigarros na janela do carro, das mulheres de capulana sentadas à sombra das acácias a vender raminhos de salsa e coentros, às vezes no meio de muitas outras verduras e frutas, às vezes dormitando, cabeça encostada ao tronco da árvore.
E dos sorrisos abertos das pessoas, que não viram as costas quando pergunto alguma coisa, que se riem muito alto quando tento por engano pagar com 10 meticais uma coisa que custa 50. Ou ao contrário. Acabado de chegar, no início desta semana, perguntava numa pastelaria: O café é 50 meticais? E o empregado, soltando uma sonora gargalhada, daquelas que se ouvem na sala toda: é metade!
Enganei-me. Estava ainda a pensar em cêntimos. Mas estas coisas passam depressa. Como também passa depressa este querer estar cá e lá. Uma, duas semanas no máximo. Espero, caro amigo, do fundo do coração, que seja também assim quando um dia regressar definitivamente a casa. Que a nostalgia de Moçambique me passe em uma, duas semanas. Porque não sei se faz bem à saúde estar assim dividido.

Um abraço, com votos de bom ano

Fernando Peixeiro