Caro amigo
Quando tu viste aí em Lisboa os apoiantes de Isaltino Morais e Marcos Perestrelo pegarem-se de razões deves ter corado um bocadinho. De vergonha. Eu acho que corei, e estou a 10 mil quilómetros. Pois bem, para que não te falte nada aqui fica mais uma carta de consolo.
Em Moçambique, ao contrário de Portugal um país muito, muito grande, a campanha eleitoral dura 45 dias. Começou dia 13 de Setembro e vamos agora entrar nas últimas duas semanas, aquelas que previsivelmente mais quentes serão.
Mas não penses que isto tem sido fácil por aqui. São dezenas e dezenas as notícias sobre murros e pontapés, pedradas, pauladas e facadas, incêndios, empurrões, bofetões, agressões e palavrões, e isto só para rimar, que a lista seria interminável. É o costume, dizem-me por aqui, e é pena, digo eu, também por aqui.
Ainda hoje, há pouco tempo, a RENAMO, partido da oposição, se queixava da FRELIMO, partido no poder, não deixar ninguém fazer a campanha descansado, porque mal sabe de um acção de campanha dos outros lá vai com umas bandeiras e uns apitos desestabilizar a coisa.
Eu não sei o que se passa no resto do país mas aqui em Maputo já assisti por duas vezes a isso, não com RENAMO mas com o MDM, outro partido da oposição. Um belo destes sábados, quando o MDM se preparava para fazer um comício num campo de futebol, a FRELIMO encheu o local de crianças e mulheres com bandeiras, fazendo o máximo de barulho possível. Desconcertado, o MDM foi para outro sítio fazer o comício, depois mudou de ideias e acabou à frente de um supermercado, desmotivada e quase sem ninguém a assistir à coisa.
Dias depois, em Boane, aqui perto também, a FRELIMO perseguiu a caravana do MDM por todo lado e a coisa, claro, descambou. Só à minha parte assisti a três rixas entre apoiantes, uma delas bastante feia, com gente rebolando pelo chão, paus de bandeira sem bandeira e a polícia a ver-se grega para separar o povo. Um tiro para o ar acalmou os ânimos. E desta vez foi mesmo para o ar, creio, porque há pouco tempo ainda, aqui em Maputo, numa perseguição, a polícia atirou para o ar e… matou um operário que trabalhava numa varanda. Tão verdade como eu estar aqui sentado num sofá a escrever-te, enquanto na televisão passa um filme com a Sigourney Weaver.
Mas não é só a FRELIMO a má da fita, pelo que vejo nas notícias todos têm a tentação de calar os outros, um belo exercício de défice democrático, uma frase tão do agrado aí em Portugal. Há gente da FRELIMO ferida por gente da RENAMO, há gente do MDM com nódoas negras provocadas pela gente dos outros partidos, e assim caminhamos calmamente campanha acima.
Nos últimos dias parece que melhorou. Por este andar, se a campanha em vez de ser 45 dias fosse três meses talvez os apoiantes de cada partido chegassem ao fim a perceber que a campanha eleitoral devia ser uma festa, e que imagens de pessoas ensanguentadas não os dignifica, nem a democracia, nem o país.
É certo que a maioria, a grande maioria, da população não alinha nestes disparates. E condena-os. Mas da mesma maneira que umas porraditas em Algés ficam mal a Portugal, umas porraditas aqui, ainda que fossem só uma vez, também não ficam melhor a Moçambique. Nem ao ser humano.
Mas pronto, porque desconfio que esta carta de consolo, para ti, está mais a servir de desabafo, para mim, ficamos por aqui, para ver se percebo porque é que aquela mulher está para ali aos tiros e a chorar.
E prometo que na próxima carta não te falo de política. Vou falar-te da Susana, uma força da natureza, a esta hora por certo longe de campanhas e mais preocupada com valores tão altos como ela própria.
Um abraço, e domingo, ainda assim, não deixes de ir votar
Fernando Peixeiro



Ola Fernando! Estás em Moçambique? Eu vivi um ano em Angola e, possivelmente daqui a algum tempo partirei novamente. Gostei de te rever por aqui ao fim de tantos anos e de te ler. Dá notícias. Um abraço da antiga colega e amiga Maria João Barreto