Caro amigo

Tenho acompanhado de longe, claramente de longe, a campanha eleitoral aí mas imagino que a ti não te passa pela cabeça o que por aqui vai. A campanha começou no mesmo dia que por essas bandas mas só acaba a 25 de Outubro. E hoje, quase duas semanas depois, ainda não se sabe ao certo quantos são os partidos concorrentes. A política é uma coisa muito gira não é?
A salgalhada por aqui mete a Comissão Nacional de Eleições, o Conselho Constitucional, 19 países e instituições que se fartam de dar para cá dinheiro e uma dezena, coisa pouca, de partidos.
Em resumo, quando se anunciaram as eleições, presidenciais, legislativas e provinciais, que nisso os moçambicanos são mais inteligentes e poupados, apareceram 29 partidos e coligações a concorrer, alguns deles, como aí, só à procura de tempo de antena e de uns dinheiros para ir aguentando a época das chuvas, que está a chegar.
Como é da lei, os partidos submeteram as candidaturas à CNE, que chegou ao fim do processo e chumbou 10. Antes já tinha chumbado uma carrada de candidatos a presidente, mas nisso ninguém ligou, ficaram três, que é uma bonita conta.
Mas com os partidos a coisa fiou mais fina. A CNE disse que não fizeram nada correcto, os partidos que não, que entregaram tudo a tempo e horas, a CNE respigou, os partidos resmungaram e andamos nisto há que tempos.
Acontece que entre os 10 partidos há um, o MDM, que é a coqueluche do momento. Liderado por Daviz Simango, o autarca da Beira tido como modelo, afastado da Renamo por quem tinha ganho, venceu as últimas autárquicas folgadamente, como independente, e fundou o novo partido. Vai a CNE e pimba, diz que concorre sim senhor mas só em quatro dos 11 círculos eleitorais, cortando de uma vez qualquer aspiração de Simango fazer mais uma bela faena.
Eu não sei se teve influência ou não mas o que é facto é que a comunidade internacional, os tais 19 países e instituições, não gostou nada. E uma bela manhã reuniu-se com a CNE e descascou forte e feio no presidente da dita. E foi depois ao Presidente da República e por estes dias deu uma conferência de imprensa a avisar que está atenta. Com que legitimidade? Pois com a legitimidade de quem contribui com mais de metade do orçamento de Estado deste país. Foram eles que disseram.
A CNE mandou a batata quente para o Conselho Constitucional e ela por lá está, a arrefecer, ou aquecer. Até dia 28 será esse órgão que vai dizer quem vai concorrer afinal às eleições e onde.
Avizinham-se dias cinzentos por aqui. Isto sem contar com as constantes notícias de agressões, prepotências, mal-entendidos e parvoíces que estão a rechear estes primeiros dias de campanha. Os feridos já são mais que muitos mas que saiba ainda não houve nenhum morto, embora ontem a imprensa tenha noticiado um, da Renamo, atacado por apoiantes da Frelimo, mas a própria Renamo veio dizer que afinal o homem só tinha desmaiado.
Serve esta carta, portanto, para te desanuviar a tristeza que imagino que essa campanha aí te dá. Quer queiramos quer não, apesar de dizermos que com o mal dos outros podemos bem, sentimos sempre algum conforto em saber que não estamos sós no mundo.

Um abraço solidário

Fernando Peixeiro


1 Response to “Uma carta de consolo”

  1. 1 Catarina

    Não sei o que é pior, fernando… Aqui está mau. estou farta desta esquizofrenia política que se vive por estes dias no nosso país, disfarçada por sorrisos falsos e ténicas de marketing xpto…

    Enfim, fernando, por muito ridiculo que esse cenário possa ser (porque o é sem pudores) o daqui é ainda pior. Porque é um ridículo dissimulado o que o torna ainda mais ridículo.

    Escreve sempre.