Caro amigo

Falei-te na minha primeira carta, a partir aqui do lado do Índico, que conheci um pouco de Maputo mas não conheci ainda Moçambique. É preciso sair da cidade para encontrar o verdadeiro país, aquele que tem medo dos leões mágicos, aquele que acha que há quem retenha a chuva só para si, aquele que mata quem lhe mete cloro na água.
São casos que acontecem aqui no interior, onde não chega a luz, a televisão ou os computadores, onde a escola ainda fica a muitos quilómetros e não há estradas nem autocarros para levar os alunos.
E só assim se podem compreender coisas como as que têm acontecido aqui este último mês, como a morte de três voluntários da Cruz Vermelha de Moçambique, acusados de estarem a propagar a cólera, quando na verdade estão apenas a tentar evita-la, colocando cloro nas águas e distribuindo-o às pessoas.
É uma triste coincidência esta das palavras, que poderá já ter levado à morte de muito mais que as vítimas contabilizadas até agora. Francisco Carmona, jornalista e linguista, diz que “os equívocos quanto ao cloro tem a ver com as dificuldades que os falantes das línguas nativas do norte de Moçambique sentem para pronunciar a palavra +clo+, acabando por pronunciar e perceber +colo+, muito próximo de +cole+”.
E tem sido precisamente no norte que mais casos aconteceram. Três mortos, 10 feridos e 20 pessoas desaparecidas, todas da Cruz Vermelha. Este mês. Sem contar com um elemento do serviço de saúde, sem contar com três polícias.
Só este ano foram 10 pessoas que morreram. Umas por estarem a “espalhar a cólera”, que neste momento regista um grande aumento de casos, e outras por estarem a “prender a chuva”, feiticeiros “pára-chuva”.
Nalgumas províncias, caro amigo, quando não chove a população vira-se para aqueles que considera serem feiticeiros, que estão a guardar a chuva só para si, que impedem que a água caia do céu. E corta o mal pela raiz. Mata o “feiticeiro”.
Na primeira semana de Fevereiro deste ano morreram três pessoas, acusadas de travarem a chuva, na província da Zambézia.
Passa-se na Zambézia, passa-se em Nampula. Em Moginqual por exemplo. Ainda te darei mais notícias de lá.
E não é fenómeno novo este, não penses. Em 2001 e 2002 funcionários do Estado, chefes tradicionais e ONG já tinham sido atacados por populares, acusados de andarem a espalhar a cólera.
E pela mesma altura, na província de Cabo Delgado, foram linchadas 18 pessoas, acusadas de comandarem magicamente sete leões que tinham morto 46 pessoas.
Parece-te impossível isto? Pois não é. Aqui, a magia caminha ao lado da realidade, às vezes ultrapassando-a. Será por isso mágico este país? Espero poder dizer-to nos próximos tempos.

Um abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Um país mágico?”

  1. 1 gina

    parabens atrasados e obrigada pela discriçao do local onde estás agora,,olha,tb tem vinho do porto por ai? bjsss gina


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