Caro amigo
Sabias tu que, no futuro, a linha de costa em Moçambique pode recuar até 500 metros? E que a barragem de Cahora Bassa pode ficar sem água suficiente para produzir energia? Que os portos da Beira e de Quelimane podem estar em risco? Que a baixa de Maputo pode desaparecer? São previsões catastróficas, parecem, mas quem entende disso garante que são antes realistas.
A questão das alterações climáticas não são um entretenimento de países ricos, não penses. Aqui em Moçambique o tema está na ordem do dia e sucedem-se reuniões e estudos sobre como é que o país será afectado, porque será, dizem, e muito.
Um deles, “Impactos das Mudanças Climáticas nos riscos de Desastres Naturais em Moçambique”, feito por académicos e cientistas entre Maio do ano passado e Janeiro deste ano, foi apresentado há dias pelo Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) do governo moçambicano. E não é nada meigo.
Diz por exemplo que até ao fim do século vão aumentar os riscos de cheias, de secas e de tempestades violentas, sem contar com a subida descontrolada das águas do mar, especialmente lá para 2050.
Uma coisa é certa e entra olhos dentro. Moçambique já está a sofrer os efeitos das alterações climáticas. De 1960 a 2005 a temperatura aumentou entre 1,1 e 1,6 graus centígrados, há menos noites frias, e a estação chuvosa começou a surgir cada vez mais tarde, passando de Outubro para Novembro e até Dezembro.
Os números, caro amigo, são como o algodão, não enganam. De 1980 a 1993 Moçambique foi atingido por quatro ciclones. De 1994 a 2007 foram onze.
E a violência também aumentou. Segundo o mesmo relatório os ventos que pouco ultrapassaram os 100 quilómetros por hora até 1993 chegaram quase aos 200 quilómetros no período posterior.
Rui Brito, um dos responsáveis pelo estudo, disse que as previsões sobre o que vai acontecer no fim deste século não são “hipóteses improváveis”. Ou seja, em 2050 a cidade da Beira pode ser uma ilha e Maputo pode ter perdido o porto, as linhas de caminho de ferro, parte da baixa da cidade e a zona litoral, onde hoje se situam estabelecimentos hoteleiros mas também casas luxuosas.
Depois, a redução de chuvas no Zimbabué e na Zâmbia podem levar à redução do caudal dos rios, especialmente a Zambeze e Save, o que pode ter implicações na produção de energia em Cahora Bassa.
Pois é. E isto sem falar da salinidade dos estuários dos rios e as implicações que isso terá na agricultura. E isto sem falar de outros países. Porque só nos últimos 20 anos, Moçambique, as Comores, Madagáscar e Malawi perderam 10.000 vidas devido a desastres naturais, que afectaram mais 42 milhões e pessoas.
E o pior é que o pior está para vir. A frase não fica bonita mas é mesmo assim. E o pior, acho eu, é que já fizemos tanta porcaria que agora por mais que a tentemos limpar já é impossível. Estamos atolados na nossa própria bosta e continuamos, com ar preocupado, é certo, a fazer, literalmente, merda. Já imaginaste, por exemplo, quantas árvores foram precisas para produzir os milhares de estudos já feitos sobre a necessidade de preservar a floresta e sobre as alterações climáticas? E achas que alguma coisa está a mudar? Eu não sei mas se tirares um bocadinho de um grande monte de bosta o que é que fica? Um grande monte de bosta.
Um abraço
Fernando Peixeiro


