Caro amigo

Tinha pensado hoje falar-te de alterações climáticas e desastres naturais em Moçambique mas uma mãozinha meteu-se pelo caminho. Um não. Três mãozinhas, pequeninas, ávidas de calor, de um carinho, de um sorriso que fosse. De um abraço que não acabasse nunca. Emocionei-me. Acho que a Francisca Paulo percebeu.
Foi esta semana que agora passou, quando visitei um centro de acolhimento de crianças, a maior parte órfão, a maior parte de vítimas da Sida. Crianças de dois anos, três, até 15, de Marracuene, aqui ao lado de Maputo.
Porque amanhã é o Dia Mundial da Criança combinei com a responsável pelo Projecto Esperança, Francisca Paulo, e lá fomos, um largo recinto vedado e três árvores a servir de sombra a grandes mesas onde todos tomavam na altura o pequeno-almoço.
Foi por ali que ela me explicou o que era o projecto, tudo anotado no meu bloco enquanto o Pedro Sá da Bandeira tirava fotografias.
O Projecto Esperança é apoiado pela organização Padrinhos de Portugal, uma associação humanitária fundada pela jornalista Catarina Serra Lopes em 2002, hoje a apoiar crianças em Marracuene e na Beira, centro de Moçambique.
Esse apoio, só em Marracuene para 270 crianças, vem de portugueses, gente anónima que se dispõe a ser padrinho de um destes meninos e lhe manda 85 euros de três em três meses. Para saúde (aqui os miúdos sofrem muito de tinha, por exemplo), para material escolar, para roupas, para brinquedos, para festas de aniversário até.
Muitos não têm ainda sequer ideia de onde lhe vem tanta fartura, habituados que estavam a passar os dias sozinhos, a cuidar de avós, a trabalhar nas hortas o dia inteiro quando os sete ou oitos anos antes os deviam levar para a brincadeira.
Para Portugal enviam por vezes desenhos, alguns escrevem cartas, algumas com fotografias. Aqui, de tempos a tempos, há um padrinho mais endinheirado que visita o afilhado. Francisca Paulo cita o exemplo de uma família que trocou as férias nos Estados Unidos por uma viagem ao encontro do afilhado moçambicano. E que saiu de cá com mais quatro afilhados.
O Jorge Custódio, a Safira, o Aires, o Armando José, a Filomena ou já sabem ou vão saber que a milhares de quilómetros daqui há alguém que contribui para as suas duas refeições, para as aulas, para o bibe verde que trazem vestido. Alguém que mesmo assim de longe consegue transmitir um carinho qualquer, tão importante para quem não tem nenhum.
“Há padrinhos que se preocupam mais com os meninos do que os próprios familiares”, diz-me a Francisca. E acrescenta: “Temos lindas histórias de amor. Há padrinhos que mandam prendas, vestuário, calçado, alguns que mandam dinheiro e tudo o necessário para fazer a festa de aniversário, como quando dois meninos fizeram anos, em Março, e os padrinhos mandaram tudo, até os balões… há uma grande relação de afecto”.
Porque é ele que mais falta ali. Nota-se nas caras sorridentes, nos olhos puros que o buscam em quem chega. Rodeiam-nos quando falo com a Francisca, bloco e caneta numa mão e a outra ali esquecida, até que uma mãozinha vem por detrás, silenciosa, e se aninha nela. Outra mão pequenina vem pelo outro lado, sorrateira, encontra um bloco e dá a volta. São agora duas mãos pequeninas e uma terceira a quem só sobra um dedo, discretamente a tentar afastar alguma das outras.
São mãos na busca de um afecto, nem que ele dure alguns minutos apenas, o tempo de uma conversa para uma peça sobre o Dia Mundial da Criança. São corpos que se aninham à espera de um carinho, de um abraço, e que ficam tristes quando te vais embora, assim que encheste o bloco de letras e números.
Não consigo escrever no meu bloco o sentimento que trago dali. Não sei agora, também, como colocá-lo aqui em palavras que tu entendas. Não sei explicar-te o sentimento de gratidão que senti em relação a esses padrinhos todos aí de Portugal. Não sei dizer-te da minha angústia de imaginar quantas crianças vão passar amanhã e tantos dias sem ninguém que lhes dê um sorriso que seja, quanto mais 85 euros de três em três meses.
Se me permites, esta minha carta dedico-a ao Jorge Custódio, à Safira, ao Aires, ao Armando José, à Filomena…
Tenho o meu bloco cheio de letras e números e na minha mão três mãos pequeninas.

Um abraço
Fernando Peixeiro


6 Responses to “Três mãos pequeninas”

  1. 1 Cláudia

    Mal li o teu texto escrevi para os padrinhos de Portugal. Quero ser um/a deles! Obrigada, Fernando.

  2. 2 Mónica

    curioso porque ouvi de passagem falar desses “padrinhos” e fiquei com vontade de investigar mais!
    obrigada por nos inspirares e encantares com as tuas palavras a kms de distancia

  3. 3 fernando peixeiro

    Claudia, quando tiveres um afilhado diz-me. :)

  4. 4 gina

    obrigada pelo teu retrato dessa instituição, sou amiga dos “amigos de XINAVANE”.Se nas tuas lides passares por lá manda tambem um retrato e dá um beijo aquela gente,existem varios padrinhos que ficam contentes por saber que a ajuda que mandam se concretiza ,bjs gina

  5. 5 Cláudia

    Fernando, já estou em contacto com a Catarina Serra Lopes. Em breve dou notícias.

  6. 6 Cláudia

    Já tenho um afilhado, o Alfredo. Tem 4 anos e vive com a avó.


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