Caro amigo

Quem vê Susana Custódio dificilmente a imagina a chorar. É alta, forte, uma torre de mulher e um sorriso permanente na cara grande. Ar decidido, voz ainda mais e nós a sentir que ao pé dela estamos protegidos dos males do mundo. Susana Custódio criou uma aldeia. É uma força da natureza.
E no entanto ela chora. Conta que chorou quando teve de acolher dezenas de pessoas aqui de Maputo que um dia ficaram sem casas, devido às cheias, chorou quando passados meses o local ainda estava inundado, e chorou depois, quando conseguiu um terreno para toda aquela gente começar uma vida nova.
Já lá vão nove anos, quase 10, e ainda hoje Susana Custódio se emociona quando lembra aquele Inverno chuvoso, tanto que alagou Chamanculo C, um bairro aqui de Maputo. Centenas de pessoas ficaram sem casas, algumas delas a procurar ajuda no Convento de S. José, onde estava a irmã Susana, franciscana hospitaleira, que já viveu na congregação (portuguesa) em Leiria, S. João da Madeira e Vila Real.
Foram 64 famílias que acolheu na altura e que durante seis meses viveram no externato. E quando chegou a hora de voltarem para casa… “Voltámos lá (Chamanculo) e havia lagoas de água verde, mosquitos, os dedos das pessoas estavam esbranquiçados. Desde esse dia não dormi bem, falei com as irmãs, movimentei a Cáritas, falei com o Conselho Municipal e eles disseram que dinheiro não, mas tinham terreno”.
Foi o princípio de uma nova vida. Terreno, vontade e Suzana Custódio. Não era preciso mais nada. Hoje, em Momemo, aqui a poucos quilómetros de onde te escrevo esta carta, nasceu uma aldeia. Onde só havia árvores e mato vivem hoje 650 famílias. E muitas mais vão a caminho.
A aldeia, que nem chega a sê-lo, a avaliar pelo nome, Bairro 4 de Outubro (assinatura do acordo de paz entre RENAMO e governo), tem sete mil habitantes e há casas a fazer para mais mil. Há um centro de saúde, uma escola primária, uma escola de formação profissional, padaria, serralharia, carpintaria… Suzana mostra o seu mais novo projecto, uma criação de frangos, enquanto ao lado se constroem casas, um lar, uma zona de apartamentos para alugar, uma sala para grandes reuniões, um campo de futebol, outro de basquetebol.
“Quando chegámos o terreno era mata, os primeiros ainda ficaram em tendas oito meses. Depois abriram-nos a primeira estrada e eu chorei”.
Hoje há estradas ligando o bairro todo, fazem-se casas para acolher mulheres desprezadas pela família por motivos que nem te vou falar, com tijolos feitos mesmo ali, numa fábrica que Suzana Custódio também mandou fazer. É uma mulher feliz que me fala, e grata, especialmente com o governo português que tem apoiado incondicionalmente (alguma coisa que faça bem!). E triste de novo, a lágrima fácil a aparecer, quando mostra os internatos para 256 meninos e meninas, porque neste país há tanta criança desprotegida e sem ninguém que nem imaginas tu.
“Que é que havemos de fazer? Há dias apareceram-me mais seis, cujos pais tinham morrido com Sida”. Todos os dias dramas novos, crianças grávidas e abandonadas, maltratadas, doentes. Suzana acolhe cada um e faz deles o seu próprio drama, como o de Nora, de Inhambane, abusada sexualmente pelo avô e que lhe apareceu ali com as duas pernas partidas. Histórias que nem te vou reproduzir, imagens que nem te vou descrever, porque esta carta é suposto ser alegre.
Termino, por isso, com “imagens” de felicidade. Uma cesta com bens essenciais para famílias carenciadas, todos os meses, é uma dessas. Como as festas semanais, a musica e a dança.
E o bairro. As casas e as ruas cheias de alunos de uniformes azuis e brancos. O jardim infantil com crianças a cantar. E a irmã Suzana Custódio, Hoje, a chorar só se de alegria.

Um abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Suzana, a construtora”

  1. 1 Catarina

    Continua a reproduzir histórias como a da Suzana, pode ser que assim surjam mais e mais Suzanas, um exército de Suzanas para salar este mundo!

    :)