Caro amigo

Duas semanas em três cidades tipicamente europeias e aqui estou eu de novo em Maputo, a “minha África”, a minha casa. Não te vou falar da África do Sul, de como os campos são bonitos e bem tratados, das paisagens maravilhosas, dos parques, da vida selvagem. Nem sequer da simpatia do povo, que a tem, ou da insegurança de Joanesburgo, que também a tem. Fixo-me no João, engenheiro, trabalha em Pretória.
O João, como deves depreender pelo nome, é português. Nasceu e cresceu aqui em Moçambique e depois do 25 de abril mudou-se, atrás dos pais, para a África do Sul, onde vive desde então.
É engenheiro, está envolvido nas obras do Mundial de Futebol, pede desculpa por falar mal português e nem sequer frequenta os clubes e associações lusas. Está, digo sem me enganar nada, perfeitamente integrado na sociedade, é um cidadão sul-africano que fala e pensa em inglês e sabe um pouco de afrikaans. Já foi a Portugal algumas vezes porque tem lá família.
E foi a propósito dessas viagens que o João, que pensa em inglês, me disse: “quando chego a Portugal sinto-me em casa, é como se regressasse a casa”. Fiquei a pensar nisto. Não nasceu lá, não viveu nunca lá, é casado com uma inglesa, tem filhos que falam inglês e construiu uma vida aqui ao lado. Seria lógico, se calhar, que se sentisse em casa também quando chega a Inglaterra.
Lembrei-me do Fernando Pessoa, quando disse, escreveu, “Minha pátria é a língua portuguesa”. Mas o João nem sequer fala fluentemente o português, antes o inglês. Fiquei a pensar nisso.
Será o sentimento do João o mesmo que o meu quando, duas semanas depois, cruzei a fronteira entre a Suazilândia e Moçambique? O sentimento de regressar a casa? É certo que estou por aqui temporariamente, que a minha verdadeira casa está a 10 mil quilómetros, mas não consigo evitar sentir-me feliz de voltar a Moçambique depois de ir à África do Sul, por muito que se viva bem, melhor, aqui ao lado.
Nem consigo evitar que, acabado de chegar, entre no restaurante Cristal para comprar pão e sinta que aquele espaço é um bocadinho meu. Que Maputo me pareça mais bonita. Que a troca de palavras com os empregados me dê prazer. Que me sinta mais livre. Em casa, enfim.
O prazer de viajar é também, sinto eu, o prazer de regressar. Rentabilizo assim um simples passeio de 15 dias, o antes, a antecipação do que vai ser, o durante, e o regresso. Algumas vezes me apeteceu ficar mais tempo nalguns lugares. Numa me apeteceu não regressar a casa.
Mas persiste a minha dúvida em relação ao João, ao regressar a uma casa que nunca foi a dele.
Ou se calhar sempre foi a dele.
Deve estar aí o segredo. É que, se calhar, a nossa pátria não é só a língua portuguesa. Há mais alguma coisa por aí, por aqui, que me faz sentir que estou a regressar a casa quando volto à Praia vindo do Senegal, ou quando volto a Maputo vindo de Durban.
E seja lá o que for, olha, é bom.

Um abraço
Fernando Peixeiro


1 Response to “Seja lá o que for é bom”

  1. 1 gina

    Se calhar a nossa casa é só onde nos sentimos bem , por uma razão ou por outra, seja lá onde isso for, e quantos mais lugares tivermos nossos, mais casas e paises podemos ter por esse mundo fora.
    Sorte a nossa quando temos capacidade de nos aconchegar e integrar nos sitíos onde passamos.Náo é para todos…… lol,,,,bjs gina


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