Se calhar vou matar uma vaca

Caro amigo

Não tem sido fácil a minha vida, por aqui, neste último mês. Inundações, avarias, e depois mais inundações e avarias. A minha casa a meter água porque sim, dois computadores doidos porque sim, o carro e a máquina de filmar. Agora, para terminar em beleza, roubaram-nos mais um computador à hora de almoço. Levaram-no debaixo do braço, debaixo dos nossos narizes. Se calhar vou ter de matar uma vaca.
E que culpa é que a vaca tem?, perguntarás tu. Pois… nenhuma. Mas com tanto azar acho que uma galinha ou uma cabra já não chega.
Foi o que aconteceu aqui em Maputo há pouco tempo na Escola Secundária Quisse Mavota, Bairro do Zimpeto. Já não chegava assim um animalzinho pequeno e mataram-se umas cabras e umas vacas.
Na escola, de um dia para o outro, começaram a desmaiar alunas sem mais nem menos. Correm as aulas normalmente e de repente cai uma aluna. Gera-se burburinho, chega-se o professor, e do outro lado da sala desmaia outra. E é assim na escola toda, desmaiam alunas sem explicação, duas, cinco, dez de cada vez.
Durante semanas os desmaios em série ocorreram na Quisse Mavota. Sempre alunas e quase sempre à tardinha. Chega-se o Ministério da Saúde, fala-se de envenenamento, de comida estragada, de alguma coisa na estrutura da escola, mas nada. A melhor conclusão parece ser a de histeria colectiva mas a comunidade não acredita, diz que o melhor é fechar a escola porque o edifício está assombrado. É preciso sossegar os espíritos.
A escola foi construída onde antes existiu um cemitério familiar. As campas foram removidas mas o que correu no Zimpeto é que faltaram alguns rituais e que os espíritos andavam revoltados, voando pelas salas, sufocando as miúdas e fazendo com que desmaiassem.
Era preciso fazer uma cerimónia que acalmasse os espíritos, oferecer-lhes uns animais em sacrifício. O governo, os Ministério da Saúde e da Educação, lá tentaram fugir a isso, mandando técnicos e mais técnicos ao mesmo tempo que enxotavam os jornalistas do local. E estes, teimosos, lá continuavam a rondar a Quisse Mavota, entrevistando as raparigas, mostrando outras em transe a esgaravatar o chão debaixo das árvores.
Até que uma belo dia, pela manhã, com o apoio da autarquia, entraram os líderes tradicionais, os curandeiros, as vacas e as cabras. Fechou-se a escola, meteram-se os jornalistas ao fresco. Não sei o que se passou lá dentro mas os animais saíram em pedaços e na escola nunca mais se ouviu falar de desmaios à tardinha.
Também não sei que espírito terei eu provocado. Mas num mês tive duas inundações com os tanques de água de casa, avariou-se a televisão, o carro e dois computadores, depois a máquina de filmar, depois roubaram-nos mais um computador e agora tenho água a pingar no tecto da casa de banho porque se avariou a bomba de água.
Todas as avarias têm uma explicação, é claro. Mas tantas e ao mesmo tempo? E se eu comprasse uma vaca? É que, qualquer dia, sem aviso prévio, a casa ainda me cai cientificamente encima.

Um abraço
Fernando Peixeiro