Caro amigo

Em Maputo os dias estão cada vez mais curtos. Enquanto aí está a chegar o calor aqui é altura de começar a procurar mantas para as longas noites, quando o sol desaparecer pouco depois das quatro da tarde. Esta noite, quando te escrevo, vou voltar a Cabo Verde, para te falar do preço dos amigos. De quanto valho. Das pessoas, enfim.
E venho falar-te daquilo que mais me magoou no tempo que estive no arquipélago, se calhar uma forma de desabafo mas se calhar também um alerta, para se um dia te acontecer eu poder dizer “não digas que não te avisei”.
Vem isto a propósito do José Melo, presidente da Associação Biosfera I, uma organização ambientalista conceituada do Mindelo, como o seu representante, de quem te falei numa carta no ano passado.
Falei-te do seu trabalho meritório na defesa do meio ambiente, de que tínhamos ficado amigos. No Mindelo estive em casa dele, conheci a mulher e o filho. E estou a pagar as propinas da filha, que estuda em Lisboa. Ele ficou na minha casa várias vezes, quando esteve na Praia, falamos muito, jantamos fora várias vezes, enfim, ficámos amigos. Julgava eu.
A duas semanas de deixar Cabo Verde o José Melo telefonou-me a pedir-me 55 contos, cerca de 500 euros, para pagar as propinas da filha. Que estava sem dinheiro, que me pagava dois dias depois, que queria aproveitar a ida a Lisboa do Tiago, um colaborador da Biosfera, para regularizar a situação. Na altura, em vésperas de partir, não tinha esse dinheiro mas usei dinheiro da empresa e lá se resolveu. “Obrigado, ligo-te logo à noite”, disse-me numa mensagem.
Não ligou. Nem nesse dia nem nunca mais. Menos de uma semana depois comecei a ficar preocupado. E liguei-lhe, duas vezes por dia, durante sete dias. O telefone sempre tocou mas nunca o atendeu. E já a poucos dias de regressar a Lisboa mandou-me um mail, a pedir desculpas. Este que aqui te mostro:
“Caro Fernando!
Antes de tudo quero te pedir mil desculpas pela falta de contacto que tenho tido contigo, mas a verdade é que ou perdi ou roubaram-me o telemóvel desde terça feira da semana passada e é claro que fiquei sem o teu nº e ainda por cima nunca raciocinei para te contactar por E-mail. De qualquer das formas, se me enviares o teu nº por E-mail te telefonarei amanhã de manhã sem falta pois quando tive necessidade de ajuda te pedi e auxiliaste de forma que jamais colocaria em jogo a nossa amizade por 55 contos. De qualquer das formas já tenho o nº da tua conta porém só te farei a transferência nesta 6ª feira pela manhã pois a UNICV acabou por adiar a exposição para o dia 2 de Março e só na 6ª é que poderei te fazer esta transferência. Espero de todo o coração não te atrapalhar por isto e mais uma vez te peço sinceras desculpas.
Do sempre amigo
Zé Melo”
Quis acreditar. Pessoas em Cabo Verde diziam que ele nunca me iria pagar mas quis acreditar. Até acreditar que tinha perdido o telemóvel e que ele, onde quer que esteve, tocou uma semana e não perdeu a bateria.
Agora, espanta-te se quiseres. Este foi o último contacto que tive do senhor. Nunca me pagou nem nunca me respondeu aos meus muitos mails que lhe enviei. Repus o dinheiro que tinha tirado da empresa. Saí de Cabo Verde faz precisamente esta noite dois meses.
Sei agora que a minha amizade valia 55 contos e isso deixa-me triste. É certo que todas as pessoas têm um preço, diz-se, mas… que diabo… 55 contos? 498,57 euros? Devo ter-me em muito boa conta porque um assessor do ministro das Finanças daí, que era meu “amigo”, também um dia me cravou 500 euros, pagou 200 e os outros 300 ficaram para as calendas, porque da mesma maneira também nunca mais me falou.
Se quiser ser positivo posso pensar que valho agora mais 198 euros do que aqui há uns anos. Por este andar ainda chego aos 100 anos a valer mil euros.
Mas, a sério, tudo isto me faz pensar também como dificilmente conhecemos os outros. Julgamos muitas vezes que conhecemos mas quantas nos enganamos… Olha-se para a cara, para os olhos, para os gestos, e não vemos nada. Pode ser tudo fingido. Se os actores choram e riem em frente das câmaras, simulam sentimentos na perfeição, amor e ódio, alegria e tristeza, raiva, vergonha, simpatia, asco, ciúmes… não somos todos actores? Melhores sem o empecilho das câmaras?
Vê a Susan Boyle, a mulher mais famosa do momento em Inglaterra. Imaginarias tu que aquela desempregada de 47 anos, um gato por companhia, chegava ao palco e cantava Dreamed a Dream daquela maneira? O que a pessoa é não se vê na cara e no caso dela que pena. Como, para mim, no caso do José Melo.
António Muñoz Molina, no livro Lua Cheia, escreve assim:
“Mas quem pode saber alguma coisa dos vivos? Quem é capaz de descobrir o que há no fundo dos olhos de alguém, por trás da máscara e do disfarce das feições de um rosto, quem pode saber o que vai por dentro da alma e o que está ainda mais para dentro ou mais para baixo, no seu interior mais profundo, enterrado lá no íntimo, no âmago, o que cada um leva escondido sem saber…”
Eu, confesso, não posso. Se pudesse teria apostado há muitos anos na Susan Boyle, se pudesse estaria alguns euros mais rico.
Mas pronto. Não é isso que fará de mim um “miserable” e não vou dizer que perdi um amigo porque o senhor de quem te falo nunca o foi, afinal. Que a filha tenha bom aproveitamento na Universidade. E que ele consiga ser feliz. E honesto.
E tu… olha… escreve, fala-me de coisas bonitas, de gente boa. Fala-me da Susan Boyle. Aqui em Maputo, onde os dias estão cada vez mais curtos, ela tem um fã de 500 euros.

Um abraço
Fernando Peixeiro

There was a time when men were kind
When their voices were soft
And their words inviting
There was a time when love was blind
And the world was a song
And the song was exciting
There was a time
Then it all went wrong

I dreamed a dream in time gone by
When hope was high
And life worth living
I dreamed that love would never die
I dreamed that God would be forgiving
Then I was young and unafraid
And dreams were made and used and wasted
There was no ransom to be paid
No song unsung, no wine untasted

But the tigers come at night
With their voices soft as thunder
As they tear your hope apart
And they turn your dream to shame

He slept a summer by my side
He filled my days with endless wonder
He took my childhood in his stride
But he was gone when autumn came

And still I dream he’ll come to me
That we will live the years together
But there are dreams that cannot be
And there are storms we cannot weather

I had a dream my life would be
So different from this hell I’m living
So different now from what it seemed
Now life has killed the dream I dreamed.


5 Responses to “Quanto valem os amigos?”

  1. 1 isabel

    Um abraço Peixe.

    Não me parece que valhas 500€. Parece-me é que esses de quem falas não valem 1 tostão.

    I

  2. 2 gina

    amigo,é a vida,,,,,, uns vão outros se vêm,lol, o conhecimento da mente humana tem muitas formas,,a monetária é a mais facil..é numérica..não envolve tantos sentimentos, uma coisa é custar na alma ,,outra custar no bolso,,e o custo da alma é bem pior,,o custo do bolso.dá raiva e sentimentos mais pro fisico,as da alma ficam cá dentro e moem mais,,e agora conta lá mais coisas da terra onde estás…que isso é que interessa..do passado só devemos recordar os ensinamentos que nos deram.e pelo sim pelo não,,ACABARAM OS EMPRESTIMOS..bjs gina

  3. 3 Miguel Fonseca

    Pois é, amigo, infelizmente há muitos “amigos” assim.

    Pois eu te digo, a amizade que tenho por ti, que acho que temos um pelo outro, vale bem menos que 500 euros, vale um jantar cá em casa sempre que passares por Lisboa… com arroz, é claro. Vale várias horas de palavras lançadas ao ar a contar e recontar momentos, aventuras e projectos.

    Afinal, o que vale uma amizade, o que é uma amizade, senão isso mesmo? Recordar as pessoas de quem gostamos e festejar os momentos que passamos com elas.

    Grande abraço!

  4. 4 Catarina

    Olá Fernando!

    Esta tem sido a minha única forma de ir acompanhando a tua vida, desde que te mudaste para Moçambique. Tive medo que acabassem com o blog, agora que mudaste de paragens. Mas realmente isso não fazia grande sentido…

    É só para te deixar aqui um beijinho e por cá te vou seguindo.

    Mantenha de Cabo Verde e um abraço bem português.

    Catarina

  5. 5 Guinevere

    Amigo (e continuo a achar que te poderei chamar amigo a vida toda),

    Por vezes entusiasmamo-nos com as pessoas. Vivêmo-las até quase aos limites. E isso faz-nos achar que as conhecemos. Ora se passamos uma vida inteira (e não chega) para nos conhecermos a nós!!!… Que tamanha ousadia acharmos que conhecemos bem os outros.
    Enfim…
    Desiludimo-nos muitas vezes… desiludimos os outros também… mas acima de tudo crescemos.
    Sinceramente, as atitudes ficam para quem as toma. Quanto a ti, peço-te que aprendas a lição de uma vez por todas e dessas pessoas guardes só o que de bom te deram. Porque isso ninguém te vai poder tirar: as boas memórias.

    Beijos grandes e amigos, para o amigo, da amiga,
    Teresa


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