Momentos

Caro amigo

Às vezes sinto que a minha vida se faz à volta da Julius Nyerere, 24 de Julho, Ho Chi Min e bairro Sommerchield. Tudo se passa aqui. A casa, o trabalho, jantares ou almoços, acácias a perder as flores, o vento a soprar milhares de pétalas amarelas, como se estivéssemos permanentemente a sair da Igreja num dia de casamento. Apeteceu-me hoje falar-te de alguns momentos de Maputo. Meus. Se não quiseres ler nem abras o resto. Um abraço.
Domingo à tarde
É domingo. Acabei de almoçar e parece quase noite. O vento nas árvores do quintal avança que vem aí uma trovoada, daquelas rápidas, muita chuva e trovões. Faço um café, subo as escadas e sento-me numa cadeira de baloiço na varanda do quarto. Levo um maço de cigarros, um isqueiro e um cinzeiro e fico ali a ver os raios, entre as árvores de Sommerchield, a trovoada a aproximar-se, os primeiros pingos de chuva. Estou descalço e de calções mas não faz frio. Nunca faz frio.
As nuvens estão agora mesmo por cima de Sommerchield. Já bebi há muito o café quando chega a chuva forte e os trovões, tanta que o chão da varanda fica ensopado. Já não é agradável estar ali e levanto-me quando o vento me aconselha a ir, mas faço-o tarde de mais. A porta da varanda, sem avisar, fecha-se na minha cara e ali fico eu, cada vez mais vento e a chuva atrás dele. A trovoada perdeu a graça e estou fechado na varanda, todo molhado, num domingo à tarde, sem telefone, sem maneira de sair, porque se saltar para o chão fico fora de casa da mesma forma e ainda me arrisco a partir alguma coisa. Partir por partir parto o vidro da porta, com o cinzeiro. E ainda tenho de passar pelos vidros espalhados no chão, felizmente só três ou quatro, pequeninos, espetados nos pés. Já tirei a cadeira de baloiço da varanda.
Um dia qualquer da semana
Gosto de almoçar na esplanada da Cristal a ver o movimento da rua. Come-se bem, os preços são relativamente baratos: uma refeição para duas pessoas ronda os 500 meticais, qualquer coisa como 15 euros. Prefiro as mesas mais longe da rua porque nas outras corro o risco de apanhar um torcicolo de tanto abanar a cabeça. Digo que não a uma vassoura de palha, daquelas ásperas, boas para varrer quintais, a uma dúzia de ovos, cabides, cartões de telefone, camisas, mais adiante um mapa de África, cadeiras e uma mesa. Depois passam por mim três ou quatro caranguejos, cigarros de diferentes marcas, uma tábua de passar a ferro, flores, pinturas e esculturas de madeira, relógios, capas para telemóveis, laranjas, almofadas e toalhas de mesa. É impressionante o que se vende, e provavelmente compra, nas ruas desta cidade. Maputo tem um exército de jovens calcorreando ruas e passeios, diz-me um moçambicano, a soldo “dos monhés”, carregados de tudo o que tu possas imaginar. Não são chatos, não insistem, mas obrigam-te a dizer que não carradas de vezes. Ou sim. Estou a precisar de uma lata de verniz para a tal cadeira de baloiço. Amanhã vou almoçar à Cristal.
Uma noite qualquer na semana
Ao contrário do que se pode pensar aí, o trânsito em Maputo não é coisa fácil, especialmente ao fim do dia, melhor dizendo ao princípio da tarde, quando a maior parte das instituições fecha. Aqui trabalha-se a partir das sete da manhã e a depois das três da tarde está tudo a ir para casa, para uma delas, ou para outro sítio qualquer.
Na Av. Julius Nyerere, a essa hora, ando a passo de caracol. Em cada esquina, cada semáforo, vendedores de flores, alguns idosos e especialmente putos. Ao fim de uma semana já os conhecia todos, como eles, julgo, a mim, porque isto é ainda assim uma terra pequena. A abordagem dos mais pequenos é sempre igual. “Boss boss boss”! Dizem-no muito rapidamente quando se aproximam da janela do carro, a pedir uma moeda, ainda que seja de um metical (um euro são aproximadamente 35 meticais, agora é só fazer as contas). Raramente lhes dou mas nem por isso deixam de me pedir e me chamar três vezes “boss”. E nem por isso, e é o que me leva a falar do assunto, deixam de ser simpáticos e sorridentes, às vezes com uma piada, às vezes a desejar boa noite e bom fim-de-semana, se for o caso. As pessoas em Maputo, acho eu, são muito simpáticas. Regra geral os moçambicanos que tenho conhecido são simpáticos. Acho que não estarei errado se te disser que este é um povo muito simpático, mesmo o povo da rua que não tem razões para o ser, que se acerca dos carros caros, de gente que supostamente tem dinheiro e que não lhe dá nada. Dou-lhe sempre um sorriso. Um deles já o trato também por “boss”. Com todo o respeito.
À beira do Índico
Janta-se no Sagres até tarde, à beirinha do mar, marisco muitas das vezes. Dizem-me que é mais uma das “tugolândia” de Maputo, o mesmo é dizer um dos locais preferidos da comunidade portuguesa. Estou com a Elisabete na esplanada, atrás de nós dois moçambicanos a beber wiskie, um sempre a falar português o outro intercalando com um dos dialectos e também com inglês quando me pede para arrastar a minha cadeira.
Numa mesa ao fundo espanhóis, noutra um grupo de raparigas louras e altas, inglês na fala, provavelmente de uma qualquer ONG. Proliferam por aqui as ONG, sempre cheias de programas, de ideias, de projectos, de apoios e de trabalho. Têm bons carros, vivem em belas casas, empregados locais a ganhar salários miseráveis quase sempre. São o outro poder, quase invisível, de Moçambique, dos países pobres, a gastar rios de dinheiro em programas todos bonitinhos de proveito duvidoso. Mas fazem aquele grupo de meninas uma mesa feliz, à beira do Indico, calor e gente também calorosa.
Lembro-me de uma conversa no outro dia aqui em casa, com o Sérgio, que trabalha para mim. O Sérgio foi pai no fim-de-semana passado e eu na segunda-feira decidi dar-lhe o resto da semana, para estar com a filha. Uma prenda, achei eu. O Sérgio recusou e depois, relutante, lá aceitou a terça-feira, mas tipo “ok ok, eu faço-te o favor de não vir amanhã, para parares de me chatear”.
A Elisabete, uma amiga, entendeu melhor a coisa do que eu. Sabes lá, dizia ela, em que condições é que ele vive? Se calhar numa casa minúscula, em que mal cabe ele a mulher e a filha. Fica em casa todo o dia a fazer o quê? E depois os vizinhos vão achar estranho. Então ele trabalha e de repente fica em casa? Um dia de semana? Uma semana inteira? Foi despedido? A própria mulher se calhar não vai entende isso bem.
Assim estão as ONG. Será que elas entendem, ou procuram sequer entender, as pessoas que tanto se esforçam por ajudar? Lembras-te do que te falei das redes mosquiteiras? Porque é que distribuem milhares de redes mosquiteiras a pessoas só porque acham que elas precisam, sem lhes perguntar primeiro do que realmente necessitam, se sabem o que fazer com elas, como as usar? E será que isso interessa? Ou interessa sim a satisfação pessoal de resolver mais um pretenso problema dos pobres moçambicanos? São dúvidas que tenho, que te deixo aqui, agora, confessando-te que talvez menos quando jantava à beira do mar, arroz de marisco e Laurentinas (cerveja). A lua levanta-se no Índico e sobe rápido, reflectida nas águas calmas da praia, a Chefina ao lado esquerdo. Digo-te, é bonito. Visto dali a coisa parece perfeita e o mundo também. E os pobres, os pobres, esses, se calhar nem sequer existem.

Outro abraço
Fernando Peixeiro


5 Responses to “Momentos”

  1. 1 Mónica

    obrigada pela partilha de momentos

  2. 2 Guinevere

    Queremos sempre ajudar sem primeiro compreendermos. Porque ter de compreender doi, abre feridas novas e outras das quais já nem nos lembramos.
    Obrigada pelos teus momentos amigo.

  3. 3 ricardo

    mwadié,
    já me tinha esquecido desta locomotiva.
    Gostei, confesso algum gozo, da história dos 55 contos.
    Mas acho que a conclusão estã mal alinhavada. A lição a tirar não é o valor escasso do Peixeiro, é sobre os timings para emprestar dinheiro.
    Se o fizesses logo no início, terias estado dois anos livre do estafermo.
    Mas, há, e por isso este comentário, uma coisa que me intriga. O que têm os 55 contos a ver com os tugas surrelfados em Cabo Verde.
    É muito curioso!
    Quando cheguei a Cabo Verde, a quem eu substitui deram golpe semelhante mas de exactamente igual montante. Tu substitui-me e sacam-te 55 contos.
    Ora, isto não me cheira nada bem… é que o único dinheiro que eu emprestei e não foi devolvido, a alguém que tu conheces, são, mais groza menos zogra, 22, 5 contos.
    Isto faz-me pensar. E não creio que seja eu a sair bem no retrato.
    Mwadié, mas o que me irrita mesmo são os 15 euros que tu pagas por dois almoços ou jantares numa bela esplanada. Isso mata-me, brader, isso mata-me… Se ao menos eu tivesse a esplanada, custar-me-ia menos os 150 dólares que custa igual repasto em Luanda, em local vagamente identificável na nossa cosmofonia.
    arre porra!

  4. 4 catarina

    momentos tão normais né? nessa tua vida de pessoa viajada em paragens exóticas… eu estava a imaginar-te nessa tua varanda, como nos filmes que sempre retratam os países de África com as cores alaranjadas (engraçado que usam a mesma fotografia com os da América Latina, wonder why?!). Bom, estava-me eu a perder nesse cliché quando me acordaste com o facto de ficares preso cá fora e ainda por cima teres que partir o vidro com o cinzeiro para te libertares do teu provisório estado de encarcerado do lado de fora.

    continua a partilhar esses momentos, tá? sempre e sempre, onde quer que estejas. venho todos os dias ao vosso blog pra vos ler.

    catarina

  5. 5 Cláudia

    “Aproveite o momento. É mais tarde do que pensa.” provérbio chinês.

    ” A borboleta não conta meses, mas momentos, e tem tempo tempo suficiente.” Rabindranath Tagore

    Felizes os que têm momentos! E eu ganhei com os que partilhaste :)


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