Mogincual, seis horas depois

Caro amigo

Quatro e meia da manhã, à porta do hotel Girassol, em Nampula. Objectivo: chegar cedo ao distrito de Mogincual, no sul da província. Distância: cerca de 200 quilómetros, percorridos de jipe. Hora de chegada: quase onze da manhã.
Como te disse, as distâncias aqui são outra realidade. (E já agora, para veres como este país é evoluído, o jogo com a Nigéria, para apuramento para o mundial de futebol, mereceu 10 minutos no principal noticiário da televisão do Estado. Toma lá!) Como em Timor, os quilómetros pouco importam. Contam-se as horas que se demora, dependendo das estradas, se as há, se choveu nos últimos dias, se o carro aguenta tanto solavanco.
Achei estranho, verdinho como estou aqui, que o Pedro, fotógrafo, que comigo estava em Nampula, sugerisse que saíssemos às quatro da manhã, para uma viagem de 200 quilómetros, mas entendi ainda à saída da cidade.
Esperámos cinco minutos pelo motorista, ainda de noite, sentados nas escadas do hotel, material de trabalho, água, bolachas e fruta. E saímos de Nampula a seguir, deixando ainda de noite as luzes do centro e as casas de cimento, entrando devagarinho onde a madeira e o capim vão substituindo o tijolo, o céu a clarear e ainda nem são cinco da manhã.
Na cidade o empregado da bomba de gasolina dormita e um autocarro que vai para o interior passa por nós. Nos arredores acorda-se mais cedo, a estrada vem cheia de gente, a caminho de Nampula, muitos a pé, outros de bicicleta, grande parte a carregar sacas de carvão.
O sol nasce pouco depois das cinco e meia. Estrada de terra vermelha, as casas à beira da estrada, feitas de madeira e colmo, todas, milhares delas por ali abaixo, cada uma com uma horta à volta, a machamba, como aqui se chama.
Entro assim no Moçambique rural, na África profunda, a sessenta quilómetros por hora, o sol a iluminar os curiosos penhascos a sudoeste antes de chegar às planícies, à erva alta e às casas, às pessoas na estrada, às crianças a caminho da escola, galinhas teimosas a quererem meter-se debaixo do carro. E Momati a sorrir, que atropelar um animal é perigoso se não pararmos, que os donos vêm atrás e lançam um feitiço, que a nossa vida nunca mais corre bem.
A paisagem não difere muito durante horas. Cajueiros, de vez em quando um embondeiro. Momati, o motorista, diz que por ali os únicos animais selvagens são as cobras, mas também nunca viu nenhuma. Homem da cidade, desconhece o nome de algumas árvores, dizendo-me apenas que são frequentes.
São oito da manhã. Faz muito calor e as crianças desapareceram quase todas, porque as aulas começaram há duas horas. A estrada, às vezes (poucas) negra, às vezes vermelha, continua cheia de gente, gente descalça, catana na mão, a caminho das machambas, saindo e entrando no capim, encolhendo-se quando passa o carro, às vezes quase a roçar-lhe evitando os buracos. Nos ribeiros e lagos água castanha, mulheres, muitas mulheres, lavam roupa. E crianças tomam banho divertidas. Quase as invejo. O Pedro tenta dormir no banco de trás.
É assim a nossa manhã, às vezes passando por aldeias, casas de tijolo, anúncios da principal companhia de telefones, da coca-cola e mais e mais bicicletas. Às vezes a dez à hora, contornado buracos, pontes estreitas, às vezes quase a cem, em pedaços de estrada asfaltada. Passamos por Sangache, perdemo-nos, voltamos atrás, e quase às onze ali estamos em Liupo, vila sede do distrito de Mogincual, à sombra de grandes árvores, t-shirt colada ao corpo.
O que havia em Liupo de tão importante que nos levou a meter-nos mais de seis horas assim num jipe, perguntarás tu.
Olha… e achas que isso tem importância?

Um abraço

Fernando Peixeiro