Caro amigo
Há um polícia com frio, as pêra abacate em flor e uma bomba de água que morreu durante as minhas férias. Um dia quente, outro cinzento e ventoso e um homem a quem os pais não tinham nome para lhe dar que anda no meu sótão às voltas com a tal bomba.
Maputo de novo. Quase como o deixei há um mês, um dia de calor e logo mais outro cinzento, a ameaçar chuva. Foi assim ontem, sem sol todo o dia e uma noite ventosa, tanto que obrigou um polícia a mandar-me parar na Costa do Sol para me dizer, imagina, que estava cheio de frio. E para me dizer também que precisava de tomar um café e que não tinha dinheiro!
Maputo. Onde os polícias ganham miseravelmente e onde por vezes, à noite, fazem operações stop para se queixarem aos automobilistas do frio e da falta de café, sem olharem para o carro e da carteira quererem mais do que a carta de condução.
Fico a pensar quantos cafés teria eu de beber, desde que cheguei a tomar banho de água fria porque a porcaria da bomba morreu na minha ausência e ninguém a avisou.
Ontem mesmo, durante todo o dia, por aqui andou o Sousa, que trabalha cá há mais de 20 anos e que viu nascer dois dos filhos ali mesmo na delegação, no tempo em que ainda não tinha nome e quando um português decidiu que a partir daquele dia se chamaria Sousa, nome que mantém até hoje.
Oficialmente o Sousa chama-se Fulano. Porque ao que parece quando nasceu ninguém estava com imaginação para um nome mais adequado. Ficou Fulano até um dia alguém achar que Fulano não era nome e passou a Sousa. É ele quem há dois dias anda às voltas com a bomba, embora eu ache que água só lá para a semana.
Maputo. Do frio policial, dos cafés, da água e do champanhe. Ocorre-me falar dele porque ainda ontem imaginava que aqui algum ministro mais atarefado é capaz de chegar à hora de almoço já bêbado. Quantas mais coisas inaugurar, mais protocolos assinar e mais cerimónias presidir mais bêbado estará. Porque por aqui não há cerimónia que não termine com um brinde de champanhe. Há tempos dizia-me um amigo, que nem é ministro nem secretário de Estado, que tem vezes que chega à hora de almoço com três ou quatro copos. Imagino um ministro, numa altura destas de eleições, com tantas coisas para inaugurar e tantas cerimónias para participar.
Na próxima carta falo-te do álcool. Porque Maputo é também a cidade dos acidentes, das bebedeiras ao volante e da falta de civismo na estrada. Enquanto a polícia bebe cafés.
Um abraço
Fernando Peixeiro


