Macabra

Caro amigo

Falei-te na última carta de vidas tristes e bairros igualmente tristes aqui de Maputo e venho hoje dar-te conta de mais algumas tristezas. A tristeza de dois rapazes, presos há dois meses, a tristeza de uma cabra violada, e a tristeza dos seus donos, que não sabem o que fazer com uma cabra violada.
Aqui há uns tempos, na localidade de Matsinho, distrito de Gôndola, província de Manica, estava uma cabrinha a pastar alegremente quando se acercaram dois rapazes. Estranhos. E que fizeram eles, caro amigo? Pois levaram a cabrinha para um sítio ermo e violaram a pobre.
Não sabemos quanto tempo estiveram nisto, só se sabe que às tantas, a esse sítio, por acaso, passou a polícia. É bom de ver, os jovens foram apanhados com a boca na botija. Ou melhor, a cabra foi apanhada com a boca na botija. Salvo seja. A polícia contou que um dos jovens estava nu enquanto segurava a cabeça da cabra e o outro, presumivelmente nu também, violava selvaticamente o animal. A polícia não explicou se a cabra tinha sido obrigada também a fazer sexo oral mas eu tenho as minhas dúvidas. Agora o resto… vê o que contou uma testemunha, Mário Creva, de Matsinho, que presenciou a detenção dos moços: “no preciso momento em que fui ver, a cabra apresentava corrimentos, o sexo estava inchado”.
Ao saber disto, naturalmente, os donos da cabra ficaram revoltados. Não costumam dizer os brasileiros que “ajoelhou? Tem de rezar!”? Pois se os meninos violaram a cabrinha agora têm de casar com ela. E que preparem já o lobolo para dar à família da bicha. O lobolo é uma cerimónia tradicional que reconhece a união marital e segundo a qual o homem compensa a família da mulher. Não há nada nessa tradição que fale em casamentos entre homens e cabras. Mas também não há nada que diga que dois jovens não podem casar com uma cabra. Pelo menos é a isso que se agarram os donos da cabra.
Eu acho que na verdade eles pouco se importam se há ou não casório. Eles querem é dinheiro. Para compensar os traumas da cabrinha, que ainda hoje deve tremer só de se lembrar e se calhar já nem berra. Se agora grasnasse, ou palrasse, não me admirava.
“O que faremos com uma cabra violada sexualmente se criamos os animais para venda e consumo?”, questionou uma das pessoas da família. Entende-se. Quem vai querer agora comprar uma cabra violada sexualmente? Credo!!!! E quem vai querer comer uma cabra violada sexualmente? Tu comias uma cabra que já foi violada sexualmente por dois jovens?
Confesso que não sei como está a passar o animal (aqui em Moçambique ainda não chegaram os psicólogos para animais) mas os dois meliantes estão na cadeia. O Tribunal de Gôndola condenou-os a seis meses de prisão mas por “furto qualificado” e não por prática de relações sexuais sem consentimento. (A cabra até pode ter consentido mas isso nunca iremos saber).
Lino Guido, o juiz encarregue do caso, disse: “O tribunal concluiu que os dois jovens praticaram furto da cabra, que é tipificado como crime no Código Penal” mas embora o acto sexual fira “a moral e os costumes tradicionais da população local” o mesmo “não se ajusta à legislação moçambicana”.
Par a justiça o caso está encerrado. Mas os donos do animal não se conformam e querem recorrer ao poder tradicional para exigir uma indemnização e o casamento, como forma de ressarcir os danos morais causados à cabra.
“Os régulos (líder com muito poder local) farão a sua análise para responsabilizar que os jovens casem com o animal”, disse um dos donos da cabra.
Para já a cabra voltou para o curral e os jovens cumprem a pena judicial. Não sei mais nada deste pungente caso. E tudo pode acontecer. Os jovens estarão com saudades da cabra? A cabra está mesmo traumatizada ou também terá saudades dos jovens? Eles terão mesmo de casar? Ninguém mais vai querer comer a cabra?
E se os jovens alegarem que a cabra os provocou? Podem exigir uma indemnização? Faz-me lembrar a história do alentejano que foi a tribunal por ter violado uma galinha, e que perante o juiz disse: “senhor doutor, eu estava calmamente sentado a apanhar sol, ela passou uma vez e abanou o rabo, passou outra e abanou o rabo, um homem não é de ferro!”.
Não sei, caro amigo, mas diria que é uma situação macabra.

Um abraço

Fernando Peixeiro


1 Response to “Macabra”

  1. 1 gina

    esta cronica vem bem a tempo das discussões sobre um certo exemplo pratico,num exame do curso de direito,,de um lente de direito,,que pretendendo atacar o casamento entre gente do mesmo genero,,provocou , através de um exemplo pseudo,pratico,,,,com casamento e relações bestiais(humano e não humano vertebrado),,por enquanto os não vertebrados ainda ficam de fora,,,ehheeh,,quanto á tua historia,,tadinha da cabra,,os humanos que se lixem