E tu? Davas-lhe o tal abraço?
1 comentário Publicado por Fernando Peixeiro 17 Dezembro 2009 em Moçambique.Caro amigo
Falei-te de uma mulher na minha última carta, não resisto hoje a falar-te de outra. Tal como a Suzana Custódio é, deve ser, tem de ser, uma força da natureza. Ao contrário da Suzana não passei com ela uma manhã mas apenas 10 minutos de uma manhã. E não me falou de quantas vezes chorou. Mas devem ter sido muitas, imensas.
Falo-te hoje de Flora Ngume. Conversei com ela quando fui há dias fazer um trabalho sobre a AMMEC, Associação Moçambicana para a Mulher Ex-combatente. Coisa simples, cheguei lá, falei com a presidente da associação, o que era e o que fazia, e depois perguntei-lhe se não poderia falar também com outra ex-combatente, uma que tivesse, basicamente, andado aos tiros. E apareceu-me a Flora.
A Flora pegou em armas sim. Não durante a guerra colonial, que é demasiado jovem para isso, mas na guerra civil, entre FRELIMO e RENAMO, aquela que, como sabes, durou entre 1976 e 1992 e que terá provocado qualquer coisa como um milhão de mortes.
Flora Alberto Ngume contou-me em poucos minutos a sua vida e, confesso, nem tive coragem de pedir pormenores. O que ela disse foi o suficiente para sair de lá aturdido. Gostava de lhe ter dado um abraço mas não tive coragem. Sabes como é, aquela frieza e distância que temos a mania de pôr quando estamos a trabalhar.
Foi raptada aos 11 anos pela RENAMO, levada para o mato, e ensinada a manejar armas durante três anos. Aos 14 estava pronta para empunhar uma AK47, a famosa metralhadora, e andou com ela, pelo mato, na frente da guerra, até aos 20, até ser desmobilizada pelas Nações Unidas.
“Fui desmobilizada pela ONUMOZ no dia 12 de Julho de 1994, quando me levaram do mato para casa”. Os últimos dias antes do fim da guerra, disse-me, foram os piores, quando andava, grávida, a fugir dos bombardeamentos da FRELIMO.
Chegou, com a RENAMO, às portas de Maputo, andou no mato meses e meses, ela e outros combatentes “morriam de fome” e pensou muitas vezes fugir. “Não sabia para onde ir, estava no mato e não sabia o que fazer”.
Não me disse, e não lhe perguntei, quantas pessoas matou. Não me disse e não lhe perguntei quantas pessoas viu morrer. Disse sim que na luta havia tantas mulheres como homens e que quando ela foi raptada também o foram outras crianças, algumas com “cinco ou seis anos”.
“Era difícil mas acostumámos”. Resumiu assim os nove anos. Ela e mais 4.000 outras mulheres moçambicanas que combateram na guerra civil que também tiveram de se acostumar, como por certo os outros tantos homens, provavelmente também muitos deles alistados à força quando meninos.
Em Moçambique “quando se trata da mulher é difícil, mas quando se trata de guerra ainda é mais difícil. Quando ficavam de bebé mas tinham de fazer marchas longas, com o período, com chuvas, sem condições mínimas de higiene”. Palavras da presidente da AMMEC, e eu acredito.
Por isso não perguntei à Flora sobre como foram os anos no mato, as relações com os mais velhos, as privações. A frase “eles faziam o que queriam” bastou-me.
E agora, passados todos estes anos? A resposta também foi muito elucidativa:
“Há coisas que podem passar mas tenho uma ferida incurável no meu coração. Quando fui levada aos meus 11 anos, as minhas amigas e os meus amigos que estudaram comigo hoje são doutores, mas eu, desempregada como sou, saí da tropa grávida de oito meses, tive uma menina, e para sustentar essa menina tenho de suar dia e noite. Como é que vou esquecer isso?”.
E tu? Davas-lhe o tal abraço?
Um para ti
Fernando Peixeiro



…e não é que a Flora existe!?
http://lusofolia.blogspot.com/2009/12/flora.html