Caro amigo

Alguma vez te passou pela cabeça que uma mulher que não pode ter filhos pode tornar-se fértil usando um cinto feito de pénis de crianças? Acredita que isso aqui já passou pela cabeça de algumas pessoas. Infelizmente as suficientes para de vez em quando morrer gente para alimentar crenças deste género. Agora mesmo pode estar a acontecer.
O caso do cinto feito de órgãos sexuais de meninos, e de dedos, foi relatado há tempos pela Liga moçambicana dos Direitos Humanos, citando a própria mulher, algures na África do Sul, perto de fronteira de Moçambique, que contou que a “receita” lhe foi dada por um curandeiro, que consistia ainda num líquido que supostamente era sangue misturado com alguma coisa, e que ela tinha de beber todos os dias.
Foi já há algum tempo isto. E poderás pensar, se isso te alivia, que se calhar a coisa mudou. Mas se eu te disser que neste preciso momento estão presas cinco pessoas na província de Manica, centro de Moçambique, acusadas de assassinar mulheres para lhes retirar os órgãos genitais, que seriam usados depois para práticas de feitiçaria?
Passou-se tudo entre finais do ano passado e este ano, de Dezembro a Março no distrito de Mussorize, norte da província. Os homens, incluindo um famoso curandeiro da região, terão raptado e assassinado quatro mulheres, para lhes extraírem a língua, o esófago, o clítoris e útero. As mulheres tinham de ser solteiras e sem qualquer relação sexual nas últimas 48 horas. Faz-me crer que os carrascos conheciam as vítimas. Eram se calhar vizinhos ou amigos porque, ao que me contam, esse tipo de crimes acontece às vezes dentro da família.
Este caso de que te falo está agora em investigação. Se for a tribunal será o segundo que lá chega na província de Manica, porque há cinco anos já três homens foram condenados a prisão por terem cortado a pila de um menor, Samito Luís, que agora mesmo está aí em Portugal para mais uma cirurgia de reconstrução.
Aurélio Morais é curandeiro, um dos representantes da classe. Há pouco tempo fui procurá-lo, num bairro aqui de Maputo. Casa em obras, ficamos sentados nuns sofás de napa no quintal, numa tarde de calor em que apetecia tudo menos falar de castrações e mutilações.
E sabes o que ele me disse? Aquilo que eu já sabia e que toda a gente sabe aqui: o assassinato de pessoas para uso dos órgãos é comum em Moçambique.
“A gente sabe que há desmandos. Para curar alguém não é preciso tirar órgãos humanos, isso é feitiçaria e isso é comum na nossa comunidade. O caso de Manica não é um caso isolado”. Disse-o assim mesmo. E disse também que isso é coisa de feiticeiros e não de curandeiros, porque estes curam doenças através de plantas e ervas medicinais.
Mas depois, por ali sentados à conversa, disse-me também, jurou, que se me colocasse uma determinada planta no meu quarto eu nunca mais dormia. E que se alguém me roubasse alguma coisa em casa ele, através de uma raiz, iria obrigar essa pessoa a devolver. E que conhece plantas, ervas, raízes, seja o que for, que se colocadas à porta de casa ninguém lá entra. Remédio santo para evitar assaltos. Fiquei a pensar porque razão existe aqui tantas empresas de segurança privada. E fiquei a pensar que fronteiras separam os curandeiros dos feiticeiros.
É prática frequente aqui recorrer-se a essa gente. Porque queremos ser ricos, ter sorte nos negócios e no amor, ser bem sucedidos. E pelos nossos desejos pagamos. E por eles alguma criança ou adulto vai perder a vida.
Em Agosto do ano passado, em Tete, um homem foi atacado quando regressava a casa e cortaram-lhe os órgãos sexuais para “fazer tratamento para riqueza e negócio”. Foi ele próprio quem contou, porque conseguiram salva-lo.
Um triste rol de histórias, caro amigo. Aqui mesmo na província de Maputo foi encontrado o corpo de um menino de 10 anos sem cabeça, coração, fígado, pénis e testículos. Em Setembro do ano passado, em Nampula, uma menina foi morta para lhe tirarem os órgãos genitais, olhos, coração, língua e seios.
E isto são apenas alguns casos, de muitos que nunca se vão saber. Há relatos de pessoas que dizem ter visto sacos de plástico com órgãos sexuais masculinos e femininos. E os corpos nunca apareceram.
E pronto, tinha de te falar disto. Porque Moçambique é um país lindíssimo mas não é só praias bonitas e paisagens fantásticas. Por detrás do capim acontecem coisas muito feias.

Um abraço

Fernando Peixeiro


4 Responses to “Detrás do capim”

  1. 1 gina

    xiiiiiiiiiii, essas coisas que contas,nem mereçem comentarios de táo arrepiantes que me pareçem,,mas obrigado por dares um “retrato “de um mundo que me é tão estranho, me faz sair do conforto da carta dos direitos humanos e esse tipo de coisas,,que eu como europeia tenho como adquirido, mas que pelos vistos náo tem nada a ver para outra gente de outros povos,ai ai a vida é memo complicada,,bjs,,gina

  2. 2 Catarina

    Bastante cruel esse mundo que contas por trás do capim. Todos os países têm o seu capim, atrás do qual escondem coisas muito feias. Basicamente essa gente faz o mesmo que os traficantes de órgãos humanos, as justificações é que são diferentes. Analisadas a fundo, as mesmas: para muita gente há vidas que valem mais do que outras.

    Continua a ser essa minha referência nesse lado do continente, do qual conheço tão pouco. Tanto que é como se de outro planeta se tratasse.

    Beijinhos,

    Catarina

  3. 3 Mónica

    que barbaridades….

  4. 4 Cláudia

    “tornar-se fértil usando um cinto feito de pénis de crianças” e “o assassinato de pessoas para uso dos órgãos é comum em Moçambique.” Como é que é possível?!?!
    Sabes, o teu relato devia correr mundo e despertar consciências, mas daqui deste mundo, confesso, com vergonha, claro, que se calhar preferia não o ter lido, qual avestruz! Que posso eu fazer? E podendo, faria? Daqui do mundo sem feitiçaria não estaremos todos com cegueira enfeitiçada?


PARCEIROS