Caro amigo

Li num livro, quando era pequeno, que os lêmingues se suicidam atirando-se de penhascos, ao que me lembro um ritual de sobrevivência da espécie. Guardei essa ideia durante anos, a dos pequenos animais precipício abaixo para que as novas gerações pudessem viver. Mais tarde vim a saber que afinal não era bem assim, que não se suicidam, e confesso-te que até perderam para mim uma certa magia. Voltei a lembrar-me deles aqui. Os moçambicanos fazem-me lembrar a história, a antiga, dos lêmingues. Só que sem magia.
Já aqui te falei das crianças de Marracuene, quase todas órfãs de vítimas de Sida. Já vi as novas curvas de mortalidade, como revelam esse fenómeno, já vi números aterradores, e acho que Moçambique dança à beira do abismo.
Agora em Julho o governo vai lançar outro plano de emergência, porque os números continuam cada vez mais altos, especialmente aqui no sul do país, onde 21 em cada cem pessoas entre 15 e 49 anos está infectada. Imaginas o que isto é? E não penses que no resto do país a situação é muito melhor: 16 por cento.
A primeira-ministra ainda há pouco mais de uma semana se confessava alarmada. E não é para menos. Segundo as projecções oficiais, Maputo cidade tem uma taxa de infecção de 23 por cento e deverá chegar aos 29 por cento. A província está com 26 por cento, com previsões de 34 por cento a curto prazo. A continuar assim não tarda nada metade da província de Maputo está com Sida.
E a Sida não é um mal das cidades. Gaza, também aqui no sul, tem uma taxa de infecção por HIV de 27 por cento, número que segundo cálculos das autoridades sanitárias moçambicanas deverá chegar aos 35 por cento. E Inhambane vai pelo mesmo caminho.
Em todo o país, que tem 20,3 milhões de habitantes, morrem em cada ano 16 mil funcionários públicos devido à Sida. Dos actuais 160 mil trabalhadores do aparelho de Estado 25 por cento estão infectados. E aqui mesmo, nesta cidade, em cada dia, surgem 500 novas infecções. Quinhentas.
E que fazem os moçambicanos? Com estes números que achas que estão a fazer? Além do que estás a pensar não estão a fazer nada, parece-me óbvio.
Num país onde jovens se prostituem por “um prato de comida”, onde às sextas-feiras, “noite dos homens”, eles saem “à caça” com o beneplácito das respectivas esposas, onde é normal um homem ter várias mulheres, onde é normal uma mulher ter amantes, onde o homem é incentivado a ter de preferência várias, onde uma dança numa festa de bairro leva a uma caso de ocasião numa esquina ou no banco de trás de um automóvel, ainda há quem pense que a Sida se cura tendo relações com uma mulher virgem. Ainda há quem troque os antiretrovirais pelos curandeiros.
Dizia Nietzsche, aconselhava, que não se deve olhar muito tempo para dentro do abismo, porque o abismo começa a olhar para nós também. A sensação que tenho é a que os moçambicanos estão a dançar à beira do abismo e a olhar para ele. A dançar a cantar e a saltar.
Os meus lêmingues não fariam melhor.
Um abraço.
Fernando Peixeiro


1 Response to “Dançando à beira do abismo”

  1. 1 gina

    1º inda bem q ja tens net e entras no site
    2ºforça pra continuares a olherar pra esse pais e nos andares impressóes
    3º não ha,
    bjs e abracinhos,gina