As pedras preciosas do uzbeque Akil
fechado Publicado por Fernando Peixeiro 24 Maio 2009 em Moçambique.Caro amigo
Akil Askarhodjaev é professor de física nuclear e física atómica. Dá aulas aqui em Maputo na Universidade Eduardo Mondlane. É um tipo de olhar vivo, cabelos brancos, um pouco atarracado de corpo, simpático e uma pronúncia engraçada. É uzbeque e faz quadros de pedras preciosas. Achei interessante e hoje falo-te dele.
“Sou natural do Uzbequistão mas fui convidado para vir para Moçambique para ajudar na formação, por acordo com a antiga URSS”. Akil Askarhodjaev termina assim a conversa quando o visito no laboratório de Gemologia da Universidade, onde passa os dias rodeado de aparelhos estranhos mas também de diamantes, turquesas, topázios, turmalinas, quartzos, rubis, ametistas, opalas… São pedras preciosas ou semi-preciosas em sacos de plástico, em sacas de papel, em cestos, em montes displicentes como se daquelas pedrinhas não saíssem, por exemplo, anéis de diamantes, alguns mostrados pelo professor, numa caixinha forrada a veludo.
Mas o orgulho de Askarhodjaev é mesmo os quadros espalhados por ali. De longe nem se nota que são só feitos de pequenos pedaços de pedras preciosas. Coisa pouca.
A ideia surgiu-lhe há uns anos, forma de aproveitar as pedrinhas que estudava mas também de rentabilizar o laboratório, porque “a investigação exige meios financeiros”, porque “é impossível fazer ciência de alto nível sem o financiamento suficiente”.
E pronto, contratou cinco jovens desempregadas, ensinou-lhe tudo sobre pedras preciosas, e hoje elas lá estão, ordenados acima da média, tão acima que o professor não os revela, para não suscitar invejas, e uma paciência de Job, para colar milhares de pedrinhas e disso fazer flores, casas, pessoas, animais e tudo o que a inspiração lhe ordene.
Moçambique tem uma grande variedade de pedras preciosas, tanta que alguns “curiosos” dos países vizinhos de vez em quando são apanhados com os bolsos cheios, para não dizer com os carros cheios. Askarhodjaev está agora a preparar, a pedido do governo, um projecto de criação de uma fábrica de lapidação em Nampula, no norte do país, além do trabalho diário de investigação, de colaboração com as alfândegas (a identificar o valor do contrabando), e, claro, de fazer quadros, vendidos por cerca de 250 euros cada um.
Parece-me que são eles a sua menina dos olhos. E os quadros, garante, embora demorados, até são fáceis de fazer, mais fáceis do que dizer o seu nome.
É quando fala deles que os seus olhos brilham, mais, muito mais, do que quando lembra o seu Uzbequistão, de onde saiu com a mulher há 20 anos.
Saí de lá com essa certeza mas hoje, confesso, talvez me tenha enganado. Estive a pensar… Não sei se os seus olhos brilhavam de paixão ou se era apenas o reflexo dos diamantes.
Um abraço
Fernando Peixeiro


