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A sobrinha do Eugénio e o casamento de Lizha James at Atlântico expresso



Caro amigo

O Eugénio trabalha comigo. Ontem, disse-me, estava um pouco triste: tinha recebido um telefonema durante a tarde, uma sobrinha tinha morrido. “De cobra”. O curandeiro disse que ela morreu porque mataram a cobra depois de ela ter atacado a sobrinha, explicou ele. Não me disse quantos filhas tinha, só me disse “vai para lá uma carrada de órfãos”.
Lizha James e Bang casaram na semana passada, aqui em Maputo. Não houve ninguém que não soubesse porque a televisão fez tantos directos à volta do casamento que era impossível. Caso não saibas Lizha James é das cantoras mais conhecidas aqui de Moçambique. Chama-se na verdade Elisa James, nasceu em Dezembro de 1982 e ganha prémios praticamente todos os anos, o último no ano passado, quando foi considerada a melhor artista da África Austral no Channel O (da África do Sul), com a música “Xitilo xa Khale”.
O Eugénio ainda ficou de lágrimas nos olhos quando me contou o caso mas não chorou. Podia ter-lhe dado o dia de folga mas não adiantava porque a sobrinha morava na Zambézia. Longe demais de Maputo, especialmente para quem não tem um carro e tem de viajar nos “chapas” e nas estradas deste país.
A Lizha começou a cantar aos sete anos na Igreja Metodista Unida de Moçambique e aos 12 fazia parte do grupo coral da igreja. Dois anos depois, e até aos 17, integrou um grupo na altura aqui muito conhecido, Electro Base. Há 10 anos lançou o seu primeiro álbum a solo, Watching You. E desde então nunca mais parou. É bonita a Lizha.
O Eugénio está preocupado agora com tanto órfão na família. Aqui há tempos morreram outras sobrinhas, deixando mais um número demasiado elevado de filhos. Morreram de diarreia. Disse-me. Se morrer mordido por uma cobra é tão irreal nos dias de hoje, morrer de diarreia também. Talvez fosse cólera. Mas ainda assim. São mortes tão inúteis, tão inglórias, tão absurdas. Não há mortes úteis e gloriosas, deves estar tu a pensar. E tens razão. Mas penso que me entendes. Eram evitáveis, facilmente evitáveis. Pronto.
Em 2005 a Lizha James lançou o seu segundo álbum, Rainha do Ragga, e ganhou também o seu primeiro prémio, pouco representativo é certo mas um prémio. Pelo caminho fez publicidade, gravou vídeos, deu a voz para grandes empresas (ainda recentemente para um banco, um contrato por certo mais do que milionário). No ano passado apareceu com outro álbum, Sentimentos de Mulher, e este ano casou com o Bang, o seu empresário e namorado de longa data.
Apesar dos avisos, dos alertas para que as pessoas tenham cuidado, a doença das mãos sujas, a cólera, continua a matar gente por aqui. E tendo em conta a dimensão do país e as dificuldades de comunicação nunca saberemos ao certo quantas são as vítimas em cada ano. Por estes dias o que chama mais a atenção são as outras mortes, paralelas à cólera, as mortes de pessoas que lutam contra a doença, às mãos daqueles que inevitavelmente a vão contrair, porque matam quem os tenta proteger.
Na semana passada, aqui em Maputo, um dos canais privados de televisão, a STV, decidiu fazer uma coisa nova e transmitiu em exclusivo o casamento da Lizha e do Bang. Reportagens diárias com os preparativos da boda e muitos diretos no dia da festa. Da saída dos noivos de casa, da viagem até à Igreja Metodista Unida, onde foi a cerimónia religiosa, da viagem até ao Indy Village, o hotel do banquete. Tudo de branco vestido.
Por azar, cólera e cloro são palavras parecidas. Essa semelhança esteve na origem, no ano passado, de ataques a voluntários da Cruz Vermelha que andavam a colocar cloro nas águas. E este ano, estes dias, a coisa refinou. A população foi mais longe e começou a ataca centros de saúde. Até agora já vão em oito mortos. Porque as pessoas não estão informadas e porque cólera e cloro são palavras parecidas. A primeira continua também a sua escalada: 36 mortos este ano, 1968 casos.
O casamento da Lizha e do Bang teve direito a um estúdio móvel, muitas câmaras, jornalistas pelas ruas, champanhe no estúdio, directos e cinco limusinas, grandes como convém e de várias cores. Cinco limusinas além de todo o outro desfile de carros topo de gama.
Não são juízos de valor sobre o casamento do ano, como aqui foi chamado. É apenas o Moçambique a duas velocidades. O Moçambique de Maputo, onde é possível ter cinco limusinas num casamento transmitido em directo na televisão. E o resto do país, onde por vezes nem estradas há, nem um carro, ainda que velhinho, para levar alguém de urgência a um posto de saúde porque foi mordido por uma cobra.
Isso se o posto de saúde não tiver sido destruído por aqueles que acreditam que alguém lhes anda a envenenar as águas salobras. Esses são os que não veem televisão. E por isso não veem as campanhas de sensibilização contra a cólera. Nem o casamento de Lizha James.

Um abraço

Fernando Peixeiro