Caro amigo
Hoje venho falar-te de duas pessoas mas descansa que tenho aí, para breve, uns animais em que quero descascar. Mas hoje estes não. São pessoas pessoas, ele era deputado aqui na Assembleia da República de Moçambique, presidente da Comissão de Luta contra a Sida e cantor, entre mil outros afazeres. Ela também era deputada, da bancada da oposição, a Renamo, e vive em Nampula, quando a Assembleia está fechada. E é a rainha de Nampula.
Encontrei-me com os dois há poucas semanas, em momentos diferentes porque Renamo e Frelimo são como cão e gato, na Assembleia, e estou hoje aqui a falar-te deles porque, cada um à sua maneira, são pessoas que me fizeram sentir um privilegiado de os conhecer.
Ele veste bem, clássico, fato e gravata de bom gosto, corte moderno, sapatos bem engraxados. Ela de capulana e lenço na cabeça, roupa tradicional de Nampula, chinelos que se descalçam quando se senta no sofá de uma das salas da Assembleia, onde também existe um piano que ele toca.
Ela cresceu em Nampula, filha de rainha, e ocupou o cargo quando a mãe morreu, numa terra onde ainda hoje o poder tradicional tem tanta importância que às vezes se sobrepõe às normas que Maputo dita. Ele nasceu na Beira, licenciou-se em Lisboa e é professor de sociologia na Universidade, além de ser dos mais conhecidos membros da Frelimo, porque também canta e toca, ainda que seja cego desde os seis anos.
Isaú Menezes ele, Irene Joaquim ela, esta semana a última como deputados, porque a Assembleia fechou portas e há eleições em Outubro.
Isaú já disse que não se importa, que aliás até pediu para não vir nas listas da Frelimo, porque quer dedicar-se mais à vida académica e porque quinze anos de Parlamento já chegam. Hoje com 47 anos, Isaú é regente da cadeira de Sociologia Urbana no Instituto Superior de Ciências Técnicas de Moçambique, quer escrever livros e ter tempo para fazer música e dar concertos, talvez gravar mais um disco, o sétimo.
É um homem de bem com a vida e ser cego parece não o incomodar em nenhum destes afazeres. “Costumo dizer que cada um vê como pode. Há várias maneiras de me aperceber da natureza que me rodeia, das pessoas que lidam comigo, das tristezas, alegrias, amores. Dá para escrever, e depois de escrever dá para musicar o poema”.
É assim o Isaú, desenrascado, mesmo quando foi para Lisboa estudar, horas e horas em transportes públicos, entre a Avenida de Berna e a Parede, passagem por Campo de Ourique onde aprendeu música.
Hoje, quando lhe pergunto se nunca pensou em saber ao menos se a sua cegueira podia ser tratada, fica em silêncio um bom bocado. E depois responde-me assim: “Uma vez perguntaram-me se não queria ir fazer uma operação. Agradeci mas pelo tempo que fiquei sem ver, se passo a ver agora fico analfabeto, completamente. Passei a vida a ler em Braille, dos 12 aos 47 anos. Se passo a ver agora, do gatafunhado todo que se faz com a esferográfica não vou perceber nada. Ficaria muito difícil adaptar-me agora”.
Pronto. Fico mudo a esta lógica.
Irene. A Irene também não se importa de ficar por Nampula, até porque lá é bem tratada e respeitada e aqui, na Assembleia, diz que a até a pisam e empurram. Os deputados da Frelimo, claro está, e sem pedir desculpa.
Consola-a saber que deputada é uma vez mas rainha será toda a vida. Mulher de olhar doce, uma voz suave suave, Irene representa o poder tradicional de Nampula, uma província outrora gerida por régulos e rainhas, que se hoje não têm qualquer poder formal ainda são ouvidos e respeitados pela populações.
Irene tem seis filhos lá para o norte, terra onde deve estar agora que o Parlamento fechou. Imagino-a já, aparência calma e ar frágil, sentada numa sala, rodeada de gente, dando conselhos, escutando opiniões, discutindo sobre a maneira de melhor educar as crianças, ou talvez sobre como a Renamo pode ganhar as próximas eleições, essa uma tarefa mais difícil.
Filha e neta de régulos e rainhas, nos tempos em que eram eles quem detinha a autoridade, Irene ainda se lembra: “A minha mãe, o meu avô, resolviam os problemas em casa deles. Agora as pessoas pedem opinião e eu indico a maneira de fazer, mas se é uma coisa que custa muito encaminho para esquadra ou para o tribunal. Mas resolver problemas só os secretários de bairro”.
Em províncias rurais, como a de Nampula, o poder tradicional ainda é muito influente, apesar de o governo comunista o ter tentado destruir. Com a abertura política foram retiradas as acusações de conluio de régulos com o colonialismo e hoje é de novo notória a influência desse pequeno poder. É a própria rainha de Nampula quem me diz que hoje o seu poder é nulo, que apenas pode aconselhar e que as autoridades locais na província, embora respeitem o poder tradicional, não se reúnem com ele nem “o deixam trabalhar à vontade”.
Mas é “rainha até morrer”, pelo poder que lhe vem dos tempos de antes dos colonos, do régulo Napula, que deu os terrenos aos portugueses para eles construírem uma cidade. E uma das suas filhas vai continuar a tradição.
Sobre o futuro não sabe. Pode ser que volte ao Parlamento mas não está preocupada. “Depois da campanha, se Deus quiser posso voltar para aqui, se não quiser vou sentar a capinar. Tenho machamba grande. Trabalho como outros, para ser respeitada não posso me exibir como uma rainha”.
Pronto. Fico outra vez mudo a esta lógica.
É assim, caladinho, que te mando um abraço.
Fernando Peixeiro

